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O fantástico Dr. Strangelove

28/12/2010

No início dos anos 60, Stanley Kubrick era um cineasta a se observar. Mal atingira a casa dos trinta anos e já era homem de confiança dos grandes estúdios: a Universal lhe atribuiu à direção de “Spartacus”, que viria ao mundo pouco depois de “Ben-Hur” se consagrar o filme definitivo de gladiadores e, mesmo assim, escaparia de inferiorizações; em seguida, ele teria total liberdade criativa para adaptar o icônico “Lolita”, romance do russo Vladimir Nobokov, famoso por vicejar polêmica por onde passava. Ninguém esperava, no entanto, que já no filme seguinte a promessa que Kubrick representava fosse se cumprir: com “Dr. Fantástico”, ele subiria o degrau que o separava dos grandes diretores do período. E daria outro passo, ainda: chegaria ao nível dos maiores cineastas de todos os tempos. Daqueles que não fazem filmes, e sim Cinema em seu estágio mais bruto; daqueles que se tornam marcos de excelência e objeto de comparação entre os colegas; daqueles que inspiram, com seu modelo de arte, as futuras gerações de profissionais; e daqueles que deleitam cinéfilos e fazem brotar nos espectadores leigos um amor que ainda está em botão.

Tudo isso, com um único filme. Mas, usualmente, não se avalia “Dr. Fantástico” como um caso isolado, já que não se pode desconsiderar a fase vivíssima que se seguiria. A este, sucederam-se os subversivos “Laranja Mecânica” e “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, que sempre carecem de uma nova revisão. A maré de acertos englobou o impecável drama de guerra “Barry Lyndon” e o clássico inatacável do suspense “O Iluminado”, e se estendeu até o filme derradeiro, “De Olhos Bem Fechados”, que Kubrick finalizou dias antes de falecer, vítima de um infarto fulminante durante o sono, em 1999. Não era o cineasta mais assíduo (um número indefinido de anos separava um filme do outro), mas, certamente, foi um dos mais empenhados e perfeccionistas, como atestam os relatos de quem quer que tenha dividido o set com ele. Sua determinação em chegar ao melhor resultado possível era notória, expressa pelos hábitos de rodar a mesma sequência centenas de vezes, de exaurir o elenco com as demandas constantes e de causar incêndios ocasionais nos cenários de tanto inundá-los com luz. Só mesmo tanto rigor poderia ter feito de “Dr. Fantástico” o que é: uma fita tão corajosa para o seu tempo quanto os exercícios posteriores – e bem mais radicais – do diretor.

A trama é situada na época em que a Guerra Fria se desenrolava à passos de cágado e a rivalidade entre os Estados Unidos capitalista e a Rússia socialista, ainda que entranhada em cada cidadão, era oficialmente amistosa – afinal, a Segunda Guerra era uma lembrança recente, e ninguém precisava de mais um conflito de proporções mundiais e baixas significativas na população. Cansado da competição velada, um general da Força Aérea americana, sem o consentimento do governo, ordena um ataque nuclear à União Soviética. Cada avião em missão de reconhecimento no território russo recebe o comando de despejar suas bombas numa área de testes inimigos – e, como manda o protocolo, após processada a ordem, os caças ficam incomunicáveis, para evitar que os inimigos interceptem a mensagem de alguma forma. Quando o Pentágono toma conhecimento desse plano insano, cabe ao Presidente corrigir a situação no curto espaço de tempo que o separa do genocídio. Até porque, se os extremos forem atingidos, uma tecnologia russa de potência transgressora poderá motivar um apocalipse atômico.

O assunto, delicado até nos dias atuais, era impenetrável para a época. Mesmo que o filme seja inteiramente voltado para a comédia, faz em seu desenrolar alusões políticas claras, inteligentes e pertinentes que dão margem a discussões concretas – para não causar mal entendidos, um letreiro ao início assegura que a situação é fictícia e que seria inconcebível num plano real, em função dos regulamentos da Força Aérea e do próprio governo. De qualquer forma, o humor que conduz a narrativa está mais próximo da farsa, como deixa clara a presença de Peter Sellers, que, como se tornaria recorrente em sua filmografia, se desdobra em três papeis diferentes: o Presidente americano, um soldado bem intencionado e um cientista nazista, o Dr. Strangelove do título original.  Sellers e suas composições burlescas balanceiam a excepcional interpretação de George C. Scott, como um general intransigente, porém prático, cujas ponderações sintetizam o que deveria ser o raciocínio do cidadão daquele período. Ou seja: que os soviéticos eram sinônimos de comunistas, e os comunistas, sinônimos de um mal que, se não remediado, não hesitaria em se alastrar pelo sistema que se tornara a força motriz da América. Se dez milhões de vidas tivessem de ser dispensadas para conter essa desgraça, que seja: antes isso que os cento e tantos milhões que sofreriam com as conseqüências da inação.

Não à toa, quando lançado, o filme foi rodeado de apreensão – não que o público não tenha embarcado no tom satírico, mas as chances da História tomar um rumo parecido, com o potencial atômico dos Estados Unidos já testado e aprovado e as táticas inimigas mantidas em sigilo, provocaram sorrisos um tanto amarelos. Hoje, que a Guerra Fria já esfriou de vez e pendeu para o lado mais óbvio, sem extinguir por hecatombe nenhum dos dois povos, “Dr. Fantástico” pode ser visto com alívio e apreciado como a grande comédia que sempre foi. Sobre Stanley Kubrick, o homem que tornou isso possível, a História nunca teve dúvidas: alçou-o à condição de gênio instantaneamente, e quase cinquenta anos depois, não há quem conteste a decisão.

.:. Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Estados Unidos, 1964, Comédia). Cotação: A+

4 Comentários leave one →
  1. 28/12/2010 12:39 pm

    Preciso dizer: estou emocionado com esse texto. Tão bem escrito, tão bem articulado, e sobre uma obra-prima de um dos diretores mais fantásticos (!) que o Cinema teve o prazer de abarcar (e vice-versa). Realmente não há mais o que falar. Parabéns. E parabéns à Sétima Arte.

    • 29/12/2010 10:30 pm

      Mateus, obrigado pelo comentário e pelo elogio! É o primeiro que recebo nesse novo blog!🙂

      Elogiar Kubrick é carne de vaca, mas no caso específico de Dr. Fantástico, espero que não me tenham faltado adjetivos!

  2. 01/01/2011 3:49 pm

    decepção 2010.
    Dr. Strangelove me magoou como nunca dantes magoada.
    sempre tive minha relação mais ou menos com Mr. Kubrick, mas ele arrancou meu coraçãozinho e pisoteou-o-o com esse filme.
    😦

    • 01/01/2011 9:02 pm

      Quéroul, jura que você não gosta desse filme???😦 Das obras do Kubrick, considero essa uma das mais “desfrutáveis”!

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