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O formidável Felicidade

27/12/2010

Numa das cenas que abre “Felicidade”, o terapeuta Bill Maplewood (Dylan Baker) ouve um de seus pacientes, Allen (Philip Seymour Hoffman), desabafar sobre as fantasias de invadir o apartamento da vizinha e sodomizá-la. Graças a essas coincidências que só se pode atribuir ao destino, a vizinha em questão, a sílfide e manipuladora Helen (Lara Flynn Boyle), é cunhada de Bill – mas ele jamais vem a descobrir isso, e também pouco se interessa. Quanto mais agressivo se torna o relato de Allen, mais alheio se torna o terapeuta, que finge prestar atenção enquanto repassa mentalmente a lista de itens a comprar no caminho de casa.

Essa rotina, contudo, é mais imprevisível do que sugere a vida de qualquer pai de família: Bill vai para a sua própria sessão de terapia e discute um sonho recorrente, no qual invade um desses parques aprazíveis em que as crianças brincam e os idosos passeiam e atira em todos os presentes com uma metralhadora Thompson; terminada a análise, passa numa loja de conveniência e compra uma revista infantil; mal retorna ao carro e começa a se masturbar com a foto do garotinho que estampa a capa; e, quando finalmente chega ao conforto do lar, o espectador, que não acompanha o personagem há mais de quinze minutos e já foi apresentado aos aspectos mais sombrios e reservados de sua personalidade, não consegue evitar o desconforto ao observar o que há de mais supérfluo na vida daquele homem – que, para todos ao seu redor, é tudo o que há para saber sobre ele.

Na mesma noite, quando o filho mais velho de Bill, de onze anos, vem lhe fazer uma pergunta sobre masturbação, a apreensão do público, que não pode evitar ver malícia no que poderia ser um diálogo natural entre pai e filho, é quase palpável de tão densa. E a sensação é similar em relação à todos os apêndices de “Felicidade”, que incluem a mulher de Bill, Trish (Cynthia Stevenson) e suas irmãs Helen e Joy (Jane Adams), esta última sinônimo de fracasso na família, pois não se casou como a primeira e não construiu uma carreira como a segunda. As ramificações do enredo também englobam os pais das três mulheres (Ben Gazzara e Louise Lasser), que estão se separando em busca de novas emoções, e o tal paciente de Bill, que apresenta suas próprias modulações de distúrbios sexuais e é almejado não pela vizinha que gostaria, mas por uma outra, gorda e insegura (a soberba Camryn Manheim).

Ambientado em Nova Jersey, a cidade coadjuvante à Nova York na qual o diretor e roteirista Todd Solondz foi criado, “Felicidade” é um desses olhares acusatórios que vira e mexe os americanos lançam à própria sociedade – frequentemente através de filmes independentes, em produções de maior liberdade criativa, que o elenco (aqui, excepcional) topa fazer por prestígio e veste a camisa junto do diretor. A crítica não é inédita, mas sempre pertinente, e poucas vezes feita com tamanha coragem. O filme é chocante, perturbador, honesto e intransigente. Não tem nudez e modera sua dose mínima de sexo, mas os diálogos são tão expositivos e adultos, e os personagens, tão viscerais em suas atitudes que fazem corar até um caminhoneiro. Talvez “Felicidade” tenha forçado demais a barreira: é difícil de absorver, mas não deve, em relevância e qualidade, à “Beleza Americana”, que atraiu muito mais atenção para si.

O longa de Sam Mendes foi lançado no ano seguinte, com intenções similares e pretensões um bocado maiores.  Assim como “Beleza Americana”, “Felicidade” é perpassado por um humor cortante que, felizmente, não cai na sátira – Solondz deve ter percebido, da mesma forma que Mendes, que o tom paródico implica numa diminuição dos personagens (ou, ao menos, que os realizadores se julgam superiores a eles). O humor, em ambos os casos, serve para situar a ação não como realista, e sim como verossímil, ou seja, uma réplica da verdade que apenas se assemelha a ela. Mas há diferenças cruciais entre os dois filmes: enquanto “Beleza Americana” se volta para os subúrbios estilizados de gramados impecáveis e para tipos caricatos que aos poucos desvendará, “Felicidade” tem uma visão clara de seus personagens desde o princípio e é obstinado em situá-los como cidadãos comuns – os que vivem em apartamentos apertados e claustrofóbicos também têm sua cota de frustração pessoal, profissional, afetiva, sexual ou tudo isso junto.

O filme e seu título carregado de ironia deixam muito em aberto para o entendimento do espectador: cada qual poderá refletir sobre os próprios problemas internos, enterrados a tal nível de profundidade que ninguém jamais será capaz de trazê-los à tona. Para os personagens de “Felicidade”, esses conflitos são como bombas-relógio prestes a explodir – e o público pode optar por expiar seus sentimentos mais privados ou continuar a reprimi-los e, nesse caso, rezar para que a bomba não estoure num futuro próximo. Tanto em “Felicidade” como em “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”, o celebrado filme anterior de Solondz, o diretor é categórico: a paz completa é inatingível, mas depois da tempestade, com os ombros menos pesados, o instinto de olhar para frente vai prevalecer.

.:. Felicidade (Happiness, Estados Unidos, 1998, Drama). Cotação: A-

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