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Farrapo Humano: o fim de semana perdido

26/12/2010

Não há lista de melhores interpretações do Cinema que não inclua no pódio o brilhante desempenho de Ray Milland em “Farrapo Humano”. Numa dessas poucas atuações que transcendem o tempo em que foram concebidas para chegar à História, Milland retrata com apetite assombroso a dependência de um alcoólatra às doses de bebida. O filme seria um dos primeiros a ter o alcoolismo como peça central, e é o que melhor retratou a condição deplorável a que é reduzido o ser humano entregue a essa fraqueza. Sua força e contundência só seriam igualadas por duas outras fitas de que se tem registro: “Vício Maldito”, sobre um publicitário que, frente às pressões profissionais, recorre à coragem líquida e arrasta a mulher para o buraco junto dele, e “Despedida em Las Vegas”, sobre um infeliz que, após ser demitido pelos problemas com o álcool, ruma para Las Vegas com os tostões que lhe restam, determinado a beber até o fígado pedir arrego. Ambos também têm a seu favor extraordinárias composições de personagem, feitas, respectivamente, por Jack Lemmon e Nicolas Cage – que, juntos de Milland, formam o trio de maiores (e melhores) bêbados em qualquer tela.

“Farrapo Humano” acompanha as 48 horas que Don, um alcoólatra inveterado, passa desacompanhado na cidade de Nova York. Ele tinha planejado uma viagem com o irmão pelo final de semana, mas acabou perdendo o trem porque estava ocupado demais debruçado sobre o balcão de um bar. Esse irmão o sustenta financeiramente e o vigia para que fique afastado da bebida – o alcoolismo persiste por seis anos, desde que a carreira de Don como escritor não se concretizou e o deixou em situação de inferioridade. Don é levado na rédea curta, também, por uma namorada de quem não consegue se desligar, mas o vínculo com a bebida é mais forte do que qualquer outro afetivo. Ele misera por trocados que possa converter em outros copos de licor, e penhora tudo a seu alcance para sustentar o vício. Como, aliás, figuras tão frequentes em nossa sociedade, que talvez tenhamos o infortúnio de conhecer em âmbito pessoal e familiar. As desventuras de Don, se hoje tão corriqueiras que qualquer novela da Globo apresenta personagem parecido, eram praticamente inéditas nos anos 40, em que os homens americanos tinham o costume de entornar uísque no café da manhã e tragar porções generosas de tabaco em ambientes fechados. A importância do filme para situar esses hábitos como problemas sérios e concretos continua imaculada.

Nem tudo ali, porém, envelheceu com a mesma elegância. O estilo dramático que regeu o cinema americano nos anos 40 era, por definição, extravagante mesmo nos aspectos em que sutilezas seriam mais adequadas. Desse modo, o tecido conjuntivo das cenas é uma trilha sonora fragorosa, melodramática e carregada nos acordes de violino; a edição não hesita em recorrer aos hoje ultrapassados fade to black; e certos papeis de apoio são estereótipo puro – como o da mocinha que tenta resgatar o protagonista de seu inferno, que, na interpretação de Jane Wyman, é um daqueles tipos ludibriados pelo amor que declama suas falas com entonação macia. Como muito do que incomoda para os parâmetros atuais era perfeitamente coerente e aceitável para a época, pode-se abstrair essas características para admirar, de peito aberto, o que é um grande trabalho de Billy Wilder em roteiro e direção (inclusive, as categorias em que receberia seus primeiros Oscars). Ele é lembrado como um craque do drama e da comédia, versátil na escrita, exímio na construção de diálogos e profundo conhecedor de sua sociedade (seus filmes, embora de apelo universal, são indissoluvelmente americanos). Mas, a esses adjetivos, merecem ser acrescentados, ainda, “visionário” e “corajoso”, por ter trazido realismo e reflexão ao que poderia ser mais um peixe na correnteza do sentimentalismo. Pelo contrário: este, só, equivale a uma enseada inteira.

.:. Farrapo Humano (The Lost Weekend, Estados Unidos, 1945, Drama). Cotação: A+

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