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Thelma & Louise, um filme atemporal

25/12/2010

Durante anos, o roteiro de “Thelma & Louise”, escrito pela estreante Callie Khouri, passou de mão em mão em Hollywood sob a alcunha de um grande filme prestes a acontecer. Os estúdios viam potencial na história, mas a rejeitavam por não se encaixar em suas demandas atuais, e mesmo a MGM, que acabou comprando os direitos, engavetou o projeto por quase uma década antes de executá-lo. Nesse ínterim, mais de vinte atrizes do primeiro time foram consideradas para as personagens-título, e cerca de quarenta cineastas foram cogitados para a direção.

Ridley Scott, que acabou ficando com o cargo, estava envolvido com o filme desde o princípio: descobrira o roteiro de Khouri antes do burburinho na indústria tomar forma e demonstrara interesse em produzi-lo. Para todos os efeitos, o enredo de “Thelma & Louise” não condizia com seu estilo pessoal: seus maiores sucessos até então tinham sido as ficções científicas “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, que não o credenciavam para um drama feminista. Contudo, a combinação foi tão feliz que Scott descolou sua primeira indicação ao Oscar pelo trabalho. Descobriu ainda que sair da zona de conforto e bater de frente com o desconhecido é exatamente o que uma carreira precisa para se sustentar à longo prazo.

Geena Davis e Susan Sarandon, que sobreviveram ao corte e assumiram os papeis principais, também atingiram desempenhos sensacionais: ambas são apontadas até hoje como uma das mais famosas parcerias do Cinema, e a química e a empatia que conseguiram estabelecer não perderam o valor e o frescor. Na ocasião, concorreram ao Oscar lado a lado, mas não levaram – a vitória seria impensável, já que é impossível optar por uma e preterir a outra, visto que as performances se complementam como se fossem única. Na mesma cerimônia, Khouri foi premiada pelo Roteiro.

A trama gira em torno de duas amigas de longa data, Thelma (Davis), uma dona-de-casa presa a um casamento infeliz com um homem truculento, e Louise (Sarandon), uma garçonete independente e desbocada, para quem as atitudes de Thelma – que precisa pedir a autorização do marido para ir além da esquina – não fazem o menor sentido. Quando o filme tem início, ambas estão planejando sair da cidade pelo final de semana, para passar dois dias sossegados no chalé de um amigo de Louise à beira do rio (Thelma deixa um bilhete para o esposo, porque falta coragem para lhe pedir em pessoa). Mas, a viagem toma caminhos inesperados quando, ao parar num bar de estrada, Thelma sofre uma tentativa de estupro e Louise atira no violentador. Como faltam evidências para alegar legítima defesa, as duas dão início a uma fuga desesperada.

Louise, mais prática e racional, propõe irem para o México e lá começar do zero: novas identidades, novas vidas. O tipo de plano que só faz sentido na teoria, enfim. Ela não tem amarras e nem mesmo o namorado, a quem vinha negando pedidos consecutivos de casamento, é motivo suficiente para que se arrisque a retornar. Já Thelma é mais resistente: tem todos os motivos do mundo para se afastar do seu próprio relacionamento, mas seus instintos comodistas lhe apontam a direção mais segura. Porém, à medida em que avançam pelos estados americanos num velho Thunderbird conversível, Thelma começa a se divertir a valer. A adrenalina a faz sentir viva pela primeira vez em muito tempo, e ela finalmente descobre o que é ter um leque de possibilidades à sua frente. Os personagens pitorescos com quem elas cruzam – como um cowboy com quem Thelma se envolve, interpretado por Brad Pitt em seu primeiro papel crucial – conferem dimensão à narrativa, assim como a paralela investigação policial que coloca um detetive (Harvey Keitel) na cola das heroínas.

Sob esses critérios, “Thelma & Louise” foi um Cult em ebulição. A identificação do público com o filme foi irrestrita e imediata, já que, de um jeito ou de outro, todos fantasiam com algum tipo de fuga – da rotina, das obrigações enfadonhas, das convenções sociais, daquilo que nos é esperado e daquilo a que correspondemos. Para uma parcela específica – mulheres, em geral –, falava a um nível ainda mais pessoal: provou que elas podiam, sim, contestar situações desfavoráveis e escapar de relações opressoras, e que só depois de jogar tudo para o alto descobririam a força e determinação que pareciam inexistir. Que o roteiro chegue a essa conclusão sem soar como um livro barato de auto-ajuda – pelo contrário, o ponto de vista é atestado por duas personagens fascinantes e matizadas – é apenas um de seus méritos. Não é de se espantar que, durante muito tempo, esse foi um filme que não parou em prateleira de locadora.

Por definição, “Thelma & Louise” também representa uma inversão do sonho americano: a salvação para as personagens seria cruzar a fronteira que separa os Estados Unidos do México, mas no sentido oposto. Elas rumam sempre ao sul, para o lado mais pobre da cerca. Precisam de pouco para ser feliz e, como vêm à descobrir, a companhia da outra é tudo o que necessitam para se virar. O desfecho dessa aventura, no entanto, é polêmico – não necessariamente inesperado, porque o roteiro caminha gradualmente a essa conclusão, e tampouco apologético, como insistem os detratores. É o tipo de solução contundente que deixa todo mundo comentando e ponderando sobre o que faria caso se encontrasse na mesma posição de Thelma e Louise. Depois de tudo o que elas passaram, julgá-las, apenas, é que não é.

.:. Thelma & Louise (Idem, Estados Unidos, 1991, Drama). Cotação: A+

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