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Sobre Meninos e Lobos: bom aqui, fraco acolá

24/12/2010

“Sobre Meninos e Lobos” é tido como um dos melhores trabalhos de Clint Eastwood, desde que ele transitou da condição de astro para a de diretor. Para os admiradores, o filme é um excelente estudo de personagens definidos por um passado perturbador que, quando reunidos pela dor de uma tragédia, reavaliam a si mesmos, com conseqüências irremediáveis para todos os envolvidos. Em tese, é exatamente isso. Na prática, não é bem assim. Se Eastwood é, em geral, um cineasta competente, também tem certos vícios que comprometem o resultado final. A sua tendência à economia – de tempo e dinheiro, já que costuma encerrar a produção dentro do prazo e do orçamento – sugere que certas sequências poderiam ser orquestradas com maior cuidado, e o seu faro para a crônica policial – que, se não serve como o refrão deste filme, ao menos motiva a ação – está mais para a de um investigador amador.

Na trama, três amigos de infância chegam à idade adulta sem qualquer intimidade e afinidade. A relação não sofrera apenas um desgaste natural: fora rompida por circunstâncias drásticas, depois que um deles, Dave, foi abduzido por dois pedófilos enquanto jogava hóquei com os garotos, na vizinhança suburbana de Boston em que foram criados. Desse dia em diante, não apenas Dave – que escapou dos sequestradores após quatro dias de abusos constantes – se tornaria um homem marcado, como os outros dois, Sean e Jimmy, também seriam assombrados pela ocasião. Se somos determinados pelas escolhas que fazemos, e a menor delas pode nos arruinar por completo, o que seria da vida deles se tivessem sido levados ao invés de Dave? Durante vinte e cinco anos, essa dúvida pairou sobre ambos – mas, só frente a outro tipo de fatalidade, o trio irá se reunir para espremer o sumo desses conflitos.

No presente, a filha adolescente de Jimmy – agora dono de um mercadinho na mesma vizinhança, que acumula na bagagem algumas detenções por furto e ligações com o crime – é assassinada com golpes na cabeça seguidos de tiro. Sean, hoje um policial estabelecido na parte mais nobre da cidade, é encarregado de solucionar o homicídio, paralelamente à própria investigação que os comparsas de Jimmy estão conduzindo pelas ruas. Quando retorna ao antigo bairro, porém, não custa a perceber, guiado pelos palpites de seu parceiro, que o velho amigo Dave – um pai de família de poucas palavras, extremamente reservado sobre o trauma em seu passado – se encaixa no perfil do assassino: na mesma noite em que o crime aconteceu, ele chegou em casa com cortes na mão e no abdome, coberto de um sangue que não era seu, e explicou à esposa que se machucara ao reagir a um assalto.

Na exposição e desenvolvimento dos protagonistas, o roteiro, adaptado por Brian Helgeland do romance de Dennis Lehane, é primoroso: numa espiral de insensata violência, os personagens estão imersos no caos a tal ponto que já não se pode precisar o que eles são de fato e o que é mero reflexo desse caos. As sombras do passado, que, graças à fotografia escura, não são apenas metafóricas, englobam os três num nível tão sufocante que o caráter de cada um é baseado no que lhes aconteceu aos onze anos de idade – da introspecção e fragilidade de Dave à contenção ferrenha de Sean, ou ainda à aspereza e ceticismo de Jimmy, que enxerga sua comunidade de irlandeses católicos com a frieza e racionalidade dos que muito já viram.

Sean Penn, em interpretação vencedora do Oscar, explora todas as nuances de Jimmy, assim como Kevin Bacon destrincha Sean no pouco tempo que reservam à sua vida pessoal. Já Tim Robbins, o elo mais fraco do terceto – premiado com o Oscar de coadjuvante, no que deve ter sido a Academia raspando o tacho –, exagera na composição e se rende às caras e bocas que os colegas, sabiamente, evitam. Marcia Gay Harden, no papel da esposa de Dave, sofre do mesmo mau: é histriônica e um tantinho caricata. Entrementes, Laura Linney e Laurence Fishburne, as outras metades de Sean Penn e Kevin Bacon (ela como a mulher, ele como um policial), entregam interpretações sutis, enxutas e, por isso mesmo, eficazes. Assim, dos três pólos apresentados, o mais fraco é justamente aquele de potencial dramático mais bruto: sempre que Robbins e Gay Harden dividem a cena, disparando um texto repleto de analogias infelizes e literatices (mencionam, inclusive, a relação entre meninos e lobos que inspirou o título nacional), a história tropeça para só se recobrar quando Penn e Bacon a assumem de volta.

Infelizmente, também há problemas com os dois, em especial no que se refere ao escopo policial do filme. O assassinato da garota e todos os desdobramentos da investigação são tão corriqueiros e banais quanto os “casos do dia” das séries de TV. O roteiro simplifica ao máximo os interrogatórios, supondo que o espectador nem sempre vá acompanhar o raciocínio por conta própria – o que é, por si só, de uma indulgência desproporcional. Logo, é comum que alguns personagens pensem em voz alta ou troquem diálogos didáticos e artificiais no processo (“Ela conhecia o assassino!”, postula Sean em certo momento, após uma testemunha afirmar que ouviu a garota cumprimentar seu atacante). Para completar, na falta de uma coesão entre as três faces do filme – não espere por uma edição elegante e bem pensada para interligar as ações paralelas –, Clint insere panorâmicas aleatórias do rio Mystic, que divide o município de Boston e serve como o título original (mais ou menos como os folhetins globais ambientados no Rio de Janeiro, que cortam para imagens do Cristo Redentor sempre que precisam simbolizar passagem de tempo ou término de um ato). Para um dos exemplares mais sólidos de Clint Eastwood, “Sobre Meninos e Lobos” deixa muito a questionar.

.:. Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, Estados Unidos, 2003, Drama). Cotação: B+

4 Comentários leave one →
  1. Rafaella Sousa permalink
    03/01/2011 10:35 am

    Eu gostei desse filme e só. O que me marcou e acho que é o melhor do filme, é o roteiro. E não acho que nem o Sean Penn e nem o Tim Robbins deveriam ter levado os Oscars e sim o Bill Murray e o Benício Del Toro.

    • 03/01/2011 1:11 pm

      Rafaella, concordo com você em relação ao Oscar! Admiro o trabalho de Sean aqui, mas ele esteve melhor naquele mesmo ano em 21 Gramas e, dentre os concorrentes, Murray e Ben Kingsley o ultrapassavam em méritos.

  2. 05/01/2011 1:40 am

    sério? eu achava que o melhor trabalho do Lindo Eastwood era Menina de Ouro.
    apesar de eu gostar bastante de Mystic River, este não é meu preferido. acho bonito, mas agora eu não sei precisar muito bem o que me incomoda nele. me lembro que a cena do Sean Penn que vc usou é bárbara de linda.
    e que eu tenho nojinho da Gay Harden, apesar de tê-la ‘perdoado’ posteriormente naquele O Nevoeiro.

    mas eu precisaria rever o filme mesmo.:/

    • 05/01/2011 3:25 am

      Quéroul, acho que eu escolheria Os Imperdoáveis. Revendo, Sobre Meninos e Lobos caiu um bocado no meu conceito (houve um tempo em que o considerava quase excelente). Sobre a Marcia, acho que ela mereceu demais o Oscar por Pollock, mas daí em diante se rendeu ao overact.

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