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O Oscar e Eu

25/02/2013

Dizem que o primeiro passo é admitir que se tem um problema.

– Oi, eu sou o Luiz e eu sou obcecado pelo Oscar.
– Oi, Luiz!

É verdade. Não sei se “obcecado” é a palavra certa, mas eu realmente dedico um tempinho do meu tempo ao Oscar, e não só nas quatro horas de cerimônia que algumas pessoas já consideram insuportável por si só. Eu gosto de ver os filmes indicados, de acompanhar todo o buzz em torno deles, de fazer minhas apostas e torcer pelos meus favoritos, e até ficar um pouquinho mal quando eles não ganham (o que acontece com uma certa frequência). Como é capaz de aproveitar tanto o Oscar, sendo o Oscar, como todos dizem, uma merda e uma festa autoindulgente de Hollywood à sua cultura de celebridade?

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Em primeiro lugar, isso é possível porque eu sei que o Oscar não deve ser tomado como parâmetro de mérito e reconhecimento artístico. E um passado de prêmios duvidosos – como “O Discurso do Rei” ganhando como Melhor Filme sobre “A Rede Social”, e “Crash” ganhando acima de “Brokeback Mountain” – confirmam essa tese. Mas não dá para dizer que o Oscar não significa nada. Para quem vê o cinema como “coisa séria”, é tão obrigatório alegar que está cagando pro Oscar quanto ser estudante de cinema e fumar maconha.

Mas o Oscar tem lá o seu propósito – e um propósito que atrai o investimento milionário dos estúdios na temporada de premiações. Você pode não ser influenciado a assistir a um filme por causa do Oscar, mas uma penca de pessoas é. E o Oscar providencia que alguns filmes bem bacanas sejam vistos por bastante gente. “O Discurso do Rei” pode não ser, sob nenhum aspecto, um filme superior à “A Rede Social”, mas não dá para taxá-lo de uma experiência tão catastrófica como aquele filme em que o Adam Sandler interpreta as gêmeas Jack e Jill, e que a Globo reprisou mais vezes na Sessão da Tarde que a novela “Renascer” no Vale a Pena Ver de novo. Acredite, galera: esse é o principal, e, por vezes, o único contato que uma parcela bem grande da população vai ter com a arte de se fazer um filme.

Se uma minoria dessa parcela se interessar, digamos, por pagar o ingresso, baixar ou alugar “O Discurso do Rei”, pode-se dizer que elas estarão sendo apresentadas a um conflito um tantinho mais complexo que os arrotos do Adam Sandler. Não adianta ostentar a bagagem cultural de quem encara “A Rede Social” como o “Cidadão Kane” da sua época. Pode acreditar: a maior parte da população brasileira não viu “Cidadão Kane”, e acha que não está perdendo muito. E mais da metade da população americana que assistiu morre de medo de dizer que achou chato.

É como as coisas são. O Oscar não é essa corporação desalmada que gosta de premiar filmes medíocres por sacanagem. Eles premiam quem faz mais sentido premiar dentro daquele contexto. Porque “Titanic” não era um melhor filme que “Los Angeles – A Cidade Proibida”, mas tinha valores de produção excepcional e estabeleceu uma conexão absurda com o público da época. Porque “Guerra ao Terror” não faturou mais que “Avatar”, mas tratava de um tema pungente e atual que recebeu o tratamento exemplar de uma equipe de profissionais singulares.

Faz muito sentido, por exemplo, premiar este ano Jennifer Lawrence como Melhor Atriz por “O Lado Bom da Vida”. Ela é a estrela do momento, assim como Gwyneth Paltrow o era quando roubou, aos olhos do público brasileiro, o prêmio de Fernanda Montenegro. Jennifer é carismática, divertida e espontânea. Uma boa parcela demográfica só estava assistindo a cerimônia esperando para vê-la no palco. O Oscar precisa de audiência, porque os custos de distribuição da cerimônia sustentam, no sentido literal da palavra, boa parte dos investimentos da Academia, que está fazendo um trabalho legal ultimamente (esse ano, convidaram um grupo de estudantes de cinema a submeter seus curta-metragens e apresentaram os vencedores durante a cerimônia).

E até chegar a hora de Jennifer subir ao palco, o público que ligou a TV só para vê-la brilhar pode aturar deleites como os vencedores na categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem, que chamaram a atenção para as dificuldades que a arte enfrenta para sobreviver nas comunidades. Também não adianta esbravejar pelas derrotas de Emmanuelle Riva e Jessica Chastain, vistas pelos experts como as mais merecedoras do prêmio de Melhor Atriz. Quem sabe se, com um Oscar em mãos, Chastain não seria tentada a aceitar um projeto que está muito abaixo do seu talento, simplesmente porque teve um novo valor comercial atribuído a ela? Amanhã, enquanto Lawrence ainda estiver celebrando o Oscar, Chastain vai estar se apresentando na Broadway. Não fique mal por ela. É exatamente onde ela deveria estar. Assim como Lawrence deve estar estreando as sequências de “Jogos Vorazes”, porque é ali que a indústria precisa que ela esteja.

Logo, quando eu digo que dou atenção ao Oscar, não é porque eu preciso que ele me aponte quais filmes assistir ou qual deixar de lado. E não porque eu concordo com os votantes de que “Argo” é maior filme que “Amor”. Mas porque eu sei que o prêmio tem implicações diversas na indústria do cinema, e que muitos dos projetos que vão surgir nos próximos anos são uma decorrência direta das escolhas feitas nessa noite.

Repararam como “Indomável Sonhadora” era sempre o filme mais aplaudido quando anunciado? Isso é porque a galera envolvida nele estava simplesmente feliz por estar lá, ganhando ou perdendo. A história de que “o importante é competir” é a mais pura verdade. O filme foi rodado com menos grana que o aluguel de um apartamento nos Jardins. E eles foram selecionados para estar ali, na companhia de uma turma que trabalha com cinema desde sempre, expostos para 1 bilhão de pessoas no mundo todo que podem ou não se interessar por assistir. O próximo filme desse diretor, seja lá qual for, já tem a sua distribuição garantida. Pensa em quantos filmes são feitos aqui no Brasil, na raça, e que nunca vão ter a mesma oportunidade de ter as suas histórias descobertas.

Por ora, dou-me por satisfeito com o Oscar E enquanto a internet está encanada com cada piada sexista que o Seth MacFarlane soltou durante a cerimônia, eu vou dormir de consciência tranquila, calmo e preparado, porque amanhã é segunda-feira e a vida não está ganha. E nunca é cedo para acompanhar as especulações para o Oscar do ano que vem.

Louis no Teatro

09/10/2011

Está em cartaz desde maio no teatro TUCA a peça “Sem Pensar”, uma adaptação do sucesso londrino “Spur of the Moment”. O texto original ganhou notoriedade não só pelo conteúdo, mas principalmente por ter sido escrito por uma adolescente de 17 anos – a mais jovem dramaturga a estrear uma obra no círculo nobre do teatro inglês. A garota, Anya Reiss, garante que o trabalho não é auto-biográfico e divide os créditos, no programa da montagem brasileira, com o seu orientador, que a ajudou a conectar os enredos e a tornar as reflexões mais profundas e incisivas.

Seja como for, o resultado final é mesmo um olhar muito divertido sobre o cotidiano. Divertido e incômodo, também. Excetuando-se um ou outro exagero de palco, todos os rompantes pelo que passam os personagens são dolorosamente verossímeis, culminando em uma cena sensacional em que a família se reúne na sala para assistir a uma cópia pirata de “O Cavaleiro das Trevas” – uma situação tão corriqueira e precisa que parece mesmo sugada da vida real.

A protagonista é Delilah (boa interpretação de Julia Novaes), uma garota às vésperas do aniversário de 13 anos que, entre as imitações de “High School Musical” com as amigas e as maratonas dos filmes de “Harry Potter”, desenvolve uma paixão platônica por Daniel (Kauê Telolli), o inquilino de 21 anos que ocupa o quarto ao lado. A princípio, a relação entre os dois sugere um vínculo fraternal – mas o estopim dos acontecimentos de um único final de semana vai colocar em xeque essa noção.

Mas os pais de Delilah (Denise Fraga e Kiko Marques) estão muito envolvidos em suas próprias atribulações para notar qualquer coisa ao redor: o marido pulou a cerca com a própria chefe e foi demitido quando o caso chegou ao fim, levando a família tanto à humilhação quanto à falência financeira. Os personagens interagem dentro das quatro paredes (imaginárias) do sobrado, em um abrir e fechar de portas constante que remete ao vaudeville.

A trilha, a iluminação e a intervenção bem marcada dos coadjuvantes simbolizam as passagens de tempo entre um incidente e outro, culminando em um clímax empolgante e muito bem narrado. Luiz Villaça, marido de Denise, assina a direção, em sua primeira incursão pelo teatro. Os principais méritos vêm da compreensão sincera do texto original, mas a transposição para a nossa realidade também tem o seu charme.

Serviço: Teatro TUCA

Endereço: Rua Monte Alegre, 1024
Tel.: (011) 3670-8455 / (011) 3670-8453

Quando: Sextas e sábados às 21h30 e domingos às 19h00. R$ 40,00 (sexta e domingo) e R$ 60,00 (sábado). Bilheteria: 15h00 às 20h00 (terça a quinta); a partir das 15h00 (sexta a domingo). De 13/05 a 30/10.

*

Também passa por São Paulo, em curta temporada, o musical “Hedwig e o Centímetro Enfurecido”. A história vem sido remontada há anos e ganhou a sua versão definitiva na Off-Broadway em 1998, com texto de John Cameron Mitchel e músicas de Stephen Trask. A mesma dupla depois adaptou a trama para os cinemas, em um filme de nicho que atingiu as proporções de cult entre os que o descobriram.

Mas a versão nacional, dirigida pelo improvável Evandro Mesquita, toma certas liberdades criativas, sendo a principal delas colocar dois atores se revezando no papel-título. Nessa montagem, os ótimos Pierre Baitelli e Felipe Carvalhido são Hedwig, uma transexual da Alemanha Oriental que, após uma cirurgia mal-sucedida de mudança de sexo, passa a cantar as suas amarguras em turnê com a banda. Eline Porto é a revelação, revezando-se em papeis secundários – entre os quais, Yitzahak, um sérvio com problemas com a imigração que se torna cúmplice de Hedwig.

Estruturado como um show de rock, com quatro músicos no palco e interações frequentes com a plateia, o espetáculo consegue humanizar mesmo as baixarias mais gratuitas (as piadas são adaptadas para incluir uma procissão de referências às celebridades brasileiras) e escapar do que facilmente poderia descambar para o grotesco. A peça, porém, julga-se muito mais profunda do que realmente é e tenta concluir em uma nota tocante, que soa muito mais honesta para os atores no palco do que para as pessoas na plateia.

Derraparam ainda nas traduções – as belíssimas canções originais perderam o ritmo e a rima, em um corre-corre para encaixar as sílabas extras na métrica – e os técnicos de som não conseguiram acertar no volume – os instrumentos, como em um bom concerto de rock, são espalhafatosos, mas muitas vezes se sobrepõem ao microfone e tornam parte da letra inteligível. Mas nada que arruine a experiência para o público, que, nos melhores momentos, se empolga como se estivesse em um estádio lotado, e não no minúsculo Teatro Nair Belo.

Serviço: Teatro Nair Belo

Endereço: Rua Frei Caneca, 569
Tel.:
(011) 3472-2414

Quando: Sextas às 21h30, sábados às 21h00 e domingos às 18h00. Bilheteria: 14h00 às 21h30 (terça a quinta); a partir das 14h00 (sextas e sábados) e das 14h40 (domingos). Estacionamento – R$ 6,00 por duas horas. De 26/08 a 16/10.

Eu Queria Não Ter Visto

06/10/2011

Em algum período longínquo, o conceito da troca de corpos deve ter parecido uma ideia refrescante e original. Não só pela irreverência da situação, mas também pela possibilidade de suscitar reflexões existencialistas pertinentes: pessoas perambulam pela vida acreditando que são incompletas e, após as peripécias sobrenaturais que lhes tiram dos próprios corpos, descobrem que tinham dentro de si tudo o que estava faltando. Mas o artifício foi requentado tantas vezes pelo cinema – de Hollywood afora, como se nota pela franquia brasileira “Se Eu Fosse Você” – que não sobra mais espaço para ponderações filosóficas.

Hoje, impera a simplificação, as piadas rasteiras e um humor de gosto cada vez mais duvidoso. Mas nenhum longa recente levou essas características ao mesmo extremo de “Eu Queria Ter a Sua Vida”, do diretor David Dobkin (“Penetras Bons de Bico”). Na comédia estrelada por Ryan Reynolds (“Lanterna Verde”) e Jason Bateman (“Quero Matar Meu Chefe”) perde-se a conta das baixarias que cruzam a tela. Dos primeiros minutos de projeção até que a história conclua o seu arco previsível, o espectador se depara com uma profusão de palavrões, sexo pervertido e, no auge do roteiro, fezes e urina (os protagonistas fazem xixi em uma fonte mágica depois de uma noite de bebedeira, e é esse “fluido corporal” que ativa o feitiço da troca de personalidades).

Não que a escatologia implique em banalização. No excelente “Missão: Madrinha de Casamento”, ainda em cartaz nos nossos cinemas, o ápice do humor é uma crise coletiva de vômito e diarreia – mas o filme não se reduz às gags fáceis e contextualiza as piadas de banheiro em personagens muitíssimo bem desenvolvidas. O mesmo não se aplica a “Eu Queria Ter a Sua Vida”. Tanto o ator desempregado interpretado por Reynolds quanto o pai de família atarefado vivido por Bateman não são explorados além do que a ocasião requer – e isso não quer dizer muito.

As gracinhas que não envolvem nojeiras impossíveis de reproduzir neste texto se voltam para a obviedade – um deles tem de se virar para cuidar de um casal de gêmeos recém-nascidos, enquanto o outro vai atuar em um filme erótico de quinta categoria. Bateman e Reynolds até se esforçam para incorporar os trejeitos um do outro e, com isso, tornar crível o inacreditável, mas não são páreo para a qualidade do roteiro. Também são desperdiçadas a sempre ótima Leslie Mann (“Ligeiramente Grávidos”) e a muito prolífica Olivia Wilde (“Cowboys & Aliens”), que ficaram com os papeis da esposa e de uma colega de trabalho de Bateman, respectivamente. E o vencedor do Oscar Alan Arkin (“Pequena Miss Sunshine”) faz uma participação de luxo – mas nada ilustre – como o pai de Reynolds, desapontado pela falta de perspectivas do filho.

Mas não é só com os personagens que “Eu Queria Ter a Sua Vida” demonstra a sua falta de compromisso. O próprio filme se implode em uma estrutura narrativa confusa e bagunçada, que comprime vários acontecimentos sem delinear a passagem de tempo e sugere ao espectador que várias semanas se transcorreram quando, na verdade, não se passou mais de um dia. Ao final, não dá para entender porque qualquer ser humano desejaria a vida de algum daqueles infelizes. Menos de duas horas em sua companhia já é desagradável o suficiente.

No excelente The Help, só a verdade pode libertar o Mississipi dos anos 60

06/09/2011

Enquanto Johnny Cash e June Carter entoavam a balada country “Jackson” pelas rádios de todo o país, a verdadeira cidade de Jackson, capital do Mississipi, não poderia estar mais distante do refrão festivo da canção. Havia pouco a se comemorar por lá no início dos anos 60: entre o auge da segregação racial e o estopim dos movimentos pelos direitos civis, a sociedade se dividia, metafórica e literalmente, em duas facções. De um lado, os brancos experimentavam a prosperidade econômica do pós-Guerra; de outro, os negros eram reduzidos a trabalhos mal remunerados e à condição de serventes daqueles que não permitiam que barreiras mínimas, como dividir um assento no ônibus ou utilizar o mesmo vaso sanitário, fossem ultrapassadas.

Desse cenário, o romance “The Help”, publicado em 2009, extraiu um enredo indissoluvelmente feminino e muito cativante que se converteu em sucesso literário instantâneo: uma ênfase não nos peões da causa – os homens que representavam a palavra de ordem na comunidade –, mas naquelas que povoaram os bastidores da ação – as mulheres que alimentavam os lares com as noções da rotina imaculada que haviam aprendido a propagar. As forças se contrapunham entre as dondocas de penteados irretocáveis – muitas recém-saídas do colégio, sem qualquer experiência universitária e nenhum ínterim entre a casa dos pais e a dos maridos – e as suas empregadas de cor – aquelas que lavavam, passavam, cerziam e criavam as crianças enquanto as patroas jogavam bridge.

A adaptação do livro para o cinema, escrita e dirigida por Tate Taylor, resultou em um fenômeno em proporções ainda maiores: “The Help” (“Vidas Cruzadas”, em seu título nacional) alcançou o topo das bilheterias americanas e calcinou a posição por semanas consecutivas, diante de lançamentos cinematográficos bem mais ambiciosos. De fato, o boca-a-boca foi tão sólido que a queda na arrecadação entre uma contagem e outra foi inexpressiva. E não é difícil precisar o porquê: o público está sempre à busca de catarses, e poucos filmes recentes proporcionam tantos momentos positivos, edificantes e absorventes como “The Help”.

Ajuda o fato de que quase todos esses instantes são explorados não sob as normas de um dramalhão convicto e pesado, mas com ternura e bom humor. No filme, temas indigestos, como as humilhações revoltantes a que eram submetidas as vítimas do racismo, são abordados com surpreendente graça e leveza e, ainda assim, sem desrespeito ou leviandade – motivo pelo qual “The Help” é não raro hilário. Fazem o possível ainda para perder qualquer traço de condescendência, algo que acompanha, inevitavelmente, até os relatos mais bem intencionados do período – e, diga-se, mais realistas também, já que a opção de transformar mesmo as passagens mais amargas em agridoces resulta em uma versão disneyficada e pouco íntegra do Mississipi dos anos 60 (não por acaso, o projeto foi gestado sob o logo da Disney).

O tantinho de indulgência que “The Help” não conseguiu enxugar é sintetizado na figura de Skeeter (Emma Stone), a jovem branca de bom coração que não sabe o que é preconceito – uma espécie de estereótipo obrigatório em fitas do gênero. Ela é a única das amigas que foi para a faculdade e não se converteu em uma parideira antes dos 20 anos. Acalentada pelas lembranças afetuosas da ama negra que a criou, Skeeter decide escrever um livro da perspectiva “da ajuda” – o termo com que a classe superior define as empregadas. É do entendimento da moça que uma interpretação inédita sobre o cotidiano, partindo daquelas de quem não se espera nada além do chão limpo e das fraldas trocadas, poderia suscitar discussões relevantes entre as forças que regiam o Mississipi e o restante dos Estados Unidos.

Skeeter, felizmente, não é enfatizada mais do que o necessário, e Emma Stone é talentosa o suficiente para desviá-la da caricatura. O foco do filme se distribui, enfim, entre as empregadas que se mobilizam para auxiliá-la na missão – não mais que duas, à princípio, já que esse tipo de colaboração era ilegal sob a legislação do Estado e o projeto do livro era mantido em sigilo absoluto entre as mulheres. É sob o ponto de vista de uma delas, Aibileen (a soberba Viola Davis), que “The Help” se estrutura como narrativa (o filme tem início já com as entrevistas que Skeeter conduziu com Aibileen, a primeira serviçal a aderir a causa, e se encerra quando a personagem conclui o seu arco dramático).

A outra “ajuda” de destaque é Minny (Octavia Spencer), conhecida por assar as melhores tortas da região e pelo pavio curto, que já acarretou em inúmeras demissões e em surras homéricas da parte do marido. Minny se desentende com a patroa (Bryce Dallas Howard), uma esnobe que rege o círculo de amigas frívolas como se presidisse um grêmio estudantil, e só vai encontrar nova oferta de trabalho na mansão de uma dona-de-casa ansiosa e excluída dos eventos sociais (interpretada por Jessica Chastain, tão bela que se demora a notar que é também ela uma atriz de minúcias fantásticas).

Não há, aliás, uma única performance destoante no elenco, que é, em sua totalidade, o mais consistente e arrebatador que sê vê no cinema em várias temporadas. Talvez seja justo cogitar que as atrizes são maiores do que o filme em que estão inseridas – afinal, ainda que realizado com alto nível de profissionalismo em todos os quesitos técnicos, “The Help” se guia estritamente por convenções que restringem o seu potencial. Mas comparar o longa com o seu excepcional elenco, ao invés de considerar as atuações extraordinárias como um mérito intrínseco à obra, é uma admoestação nefasta.

“The Help” não revoluciona nem transgride, mas serve aos próprios propósitos com considerável nobreza. É um filme com o coração no lugar, capaz de envolver o espectador por suas mais de duas horas de projeção e de arrancar lágrimas e gargalhadas igualmente sinceras. “The Help” acredita que ódios raciais podem ser substituídos pela harmonia, e todas as suas vertentes se encaminham para uma conclusão doce, mas não adocicada. Ao final, quando Aibileen fisga o público em suas palavras repletas de significância, não há como repreender um suspiro pesaroso: a verdade pode ser dolorosa, mas, como a empregada vem a descobrir, abraçá-la e compartilhá-la é a forma mais límpida e virtuosa de libertação.

A surpresa do ano: Crazy Stupid Love

27/08/2011

Na cena inicial de “Amor a Toda Prova”, a câmera dos diretores Glenn Ficarra e John Requa (“O Golpista do Ano”) passeia sob as mesas de um restaurante e flagra a intimidade dos casais presentes – alguns roçam os pés acanhados, outros partem para investidas mais ousadas. Quando a tomada se demora nos personagens de Steve Carell (série “The Office”) e Julianne Moore (“Minhas Mães e Meu Pai”), cada qual sentado em um extremo da mesa e com as pernas tensionadas na cadeira, não é preciso de muito mais para deduzir que ali está um casal em profunda estagnação – uma constatação que se escancara no instante seguinte, de maneira bem menos sutil, quando a mulher anuncia que quer o divórcio ao mesmo tempo em que o marido decide que pedirá crème brûlée para a sobremesa.

Esse ritmo preciso e certeiro vai nortear o restante da trama: “Amor a Toda Prova” promoverá, ao longo de quase duas horas de duração, todas as catarses a que tem direito; mas, ao mesmo tempo em que entrega o conteúdo mastigado e digerido ao espectador, não deixa de dizer um bocado também nas entrelinhas. Um bocado mesmo, quando se considera que toda a divulgação do filme simplificava a sua proposta em uma comédia sobre dicas de paquera – oferecidas, no caso, pelo personagem de Ryan Gosling (“Namorados Para Sempre”), um mulherengo que se apieda de Carell ao encontrá-lo afogando as mágoas do divórcio no balcão de um bar. Aliás, encarado somente sob esse contexto, “Amor a Toda Prova” não perde a eficácia, mas deixa muito ainda a abstrair.

O amor do título – a única palavra preservada do original “Crazy Stupid Love” (Louco, Estúpido Amor, em tradução literal) – é o que motiva os encontros e desencontros que perpassam a trama. Em seu miolo, está o casal formado por Carell e Moore, em fase inicial de separação porque ela pulou a cerca com um colega de trabalho (Kevin Bacon). Nas arestas, está o personagem de Gosling, um bon vivant que teve tudo de mãos beijadas e se especializou na arte da sedução – a sua lábia, porém, é desafiada pela relutância de uma das moças em que passa sua cantada, uma ruiva vivaz e questionadora (Emma Stone, de “A Mentira”). Também ganha destaque o filho pré-adolescente de Carell e Moore, que, mesmo diante da ruptura do casamento dos pais, permanece convicto no poder do amor e disposto a provar à sua babysitter, quatro anos mais velha, que está apaixonado – sem saber que ela própria cultiva uma paixão inatingível.

A princípio, os enredos parecem desconexos, e a ligação entre eles, demasiadamente tangencial. Mas o roteiro reserva reviravoltas coerentes e deliciosas de acompanhar, que redimensionam o escopo das situações e as enveredam para caminhos inesperados. Grande parte do sucesso se deve ao subgênero. É o drama, e não o romance, que se mescla com o humor da narrativa e evoca o estado de espírito dos personagens. Mais do que a ligação afetiva entre eles, é o dilema interno de cada um que está em jogo. Uma compreensão, é claro, que não passa despercebida ao elenco excepcionalmente talentoso – em especial a Steve Carell, que nunca esteve tão bem no cinema. Sua performance é um exemplo de economia e disciplina, tal como a sua habilidade de sintetizar nos olhos as emoções que atores menos cautelosos estampariam no rosto inteiro. De fato, não há entre as atuações um único gesto supérfluo – excetuando-se, talvez, o núcleo juvenil, que nem por um milagre estaria no mesmo nível de proficiência de Julianne Moore ou Kevin Bacon.

Mas isso também não é problema em “Amor a Toda Prova”, que, em seu cerne, trata justamente de amadurecimento. O personagem de Carell, um pai de família consolidado, tem tanto a aprender quanto o filho. O divórcio o catapulta para uma vida noturna agitada, na qual ele se sente pouco à vontade e que o submete, além das contas caríssimas de alfaiate e bartender, a experiências vexatórias (como uma noite de sexo casual com uma alcoólatra em recuperação, vivida com desenvoltura por Marisa Tomei). Custa a ele admitir que não foi a infidelidade da esposa que pôs fim ao casamento: há anos, a relação do casal empacara entre o amor e a amizade, num ponto em que as qualidades de uma pessoa já se tornaram tão corriqueiras para a outra que esta sequer tira um momento para apreciá-las.

Por sua vez, o personagem de Gosling, ainda que inserido no arco planíssimo do garanhão que se regenera, é humanizado pelo roteiro e pelo ator (talvez o mais proeminente de sua geração em Hollywood). Da caricatura inicial, que assessora a transformação de Carell sem motivos palpáveis ou compreensíveis, ele se molda no personagem mais inflexível às investidas do amor – não por cinismo, mas por uma questão de defensiva. Trata-se de alguém que prefere migrar de um contato superficial ao outro para jamais ser reduzido a um estágio de desolação e sofrimento como o de Carell no início do filme. O que Gosling vem a assimilar – talvez irremediavelmente tarde – é que, ao se proteger dos contras de um relacionamento, ele também se resguarda dos prós, sintetizados na persona irresistível de Emma Stone.

E, finalmente, o garotinho apaixonado experimenta um sentimento que desconhece e que não sabe ministrar. O primeiro amor lhe provoca sonhos molhados e lhe inspira a fazer as declarações públicas mais inusitadas. É o início de sua imersão em um território desconhecido, que vai bem além da infância pueril – e que “Amor a Toda Prova” encare essa transição não como uma perda, e sim como uma libertação, é mais uma confirmação de que o filme, afinal, não quer extrair risadas fáceis e mandar o espectador de volta para casa com a lista do supermercado na cabeça. Quer, ao invés disso, incitar uma reflexão sobre os modelos de humanidade que apresenta, e sobre como um único sentimento é capaz de conectá-los.

A volta dos clássicos: O Rei Leão 3D

27/08/2011

“O Rei Leão”, o clássico da Disney de 1994, retorna aos cinemas brasileiros nessa sexta, remodelado em cópias 3D. Pelas próximas semanas, o filme será também relançado em escala mundial – uma reestreia que, 17 anos mais tarde, está aguçando os ânimos da geração que conferiu a animação em sua exibição original e de tantos outros que a descobriram anos depois, em VHS, DVD ou Blu-ray. Os mais pequenos terão ainda a chance de conhecer a história de Simba, o leãozinho proclamado rei da selva africana, na telona, com efeitos inigualáveis de som e imagem.

A forma, porém, só pode ser repensada porque o conteúdo em si não arrefeceu. “Isso é o que há de único nas animações da Disney: os filmes têm uma qualidade perene. Eles não envelhecem e sempre parecem frescos e relevantes”, defendeu Rob Minkoff, o diretor de “O Rei Leão”, convocado para reestruturar a obra em 3D. A Disney lhe é muito grata pelo trabalho no filme: o desenho, um dos mais aclamados e relembrados de todos os tempos, arrematou dois Oscars (Trilha Sonora e Canção) e rendeu dividendos inesgotáveis ao estúdio, na forma de produtos e de entretenimento (incluindo um extraordinário musical da Broadway, remontado ao redor do mundo).

Um sucesso compreensível: tal e qual similar à trama shakespeariana de “Hamelet”, do qual emula os temas centrais de trono usurpado e herdeiro renegado, “O Rei Leão” era um musical vibrante, contagiante e não raro emocionante, tanto em seu miolo quanto em suas arestas. O enredo: o protagonista, o leão Simba, debanda da alcateia depois da morte do pai, o Rei Mufasa, pela qual seu tio, o tenebroso Scar, lhe faz sentir responsável. Antes de amadurecer e de clamar pelo que é seu de direito, Simba se depara com uma porção de coadjuvantes pitorescos – entre os quais o suricata Timão e o javil Pumba, dois ícones da Disney dos anos 1990 – e vive ainda uma história de amor leonina.

A julgar pela empolgação em torno de “O Rei Leão 3D”, o apelo desse enredo não prescreveu. Mas era importante para os envolvidos que o relançamento não fosse motivado apenas por estatísticas mercantis – uma sensação inevitável, em tempos em que o próprio 3D foi banalizado em projetos que se aproveitavam do rótulo somente para inflar o preço dos ingressos. “Não queríamos fazer porque é uma modinha”, afirmou Minkoff. Como exemplo, ele resgata o que a tecnologia teve de melhor. “Essa conversa sobre o 3D tem se prolongado há alguns anos, se muito, mas depois de ‘Avatar’ não restaram dúvidas. Ninguém contestava que era uma experiência incrível, e o entusiasmo para rever ‘O Rei Leão’ dessa maneira era grande”, justificou o diretor.

A conversão, contudo, é um recurso que muito dificilmente tem dado certo. “Avatar” foi filmado com o 3D em vista, com enquadramentos e ângulos específicos para realçar a profundidade e as texturas da lua Pandora; “O Rei Leão”, por sua vez, já existia como uma obra chapada. Minkoff, porém, correu atrás do prejuizo. “Eu tive aulas de 3D”, admitiu o diretor. “Discutimos os componentes da tecnologia, porque, de fato, as escolhas que você faria em um filme convencional não são as mesmas que faria para um 3D”, completou.

Havia muitas escolhas a serem feitas, mas, principalmente, o desafio de não dilacerar o espírito do original no processo. “Eu respeito muito o filme como ele era”, confirmou Minkoff. Segundo o diretor, as alterações apenas potencializaram a magia de “O Rei Leão”, quase como se literalmente envolvesse o espectador nas savanas africanas em que a história se passa. “Agora, você se sente parte do mundo do filme, que é basicamente o que o cinema tenta fazer. Você quer ser absorvido pelo filme e sentir que é, de fato, uma parte dele”, disse Minkoff.

O trabalho foi pesado: não para inserir efeitos gratuitos de objetos ou elementos que “saltam” na plateia – algo que, segundo Minkoff, distrai o espectador ao invés de emergi-lo mais ainda na experiência -, e sim para trabalhar os planos e as marcações dos personagens. “É preferível que a profundidade esteja atrás do plano principal, pois parece que você está olhando pela janela desse mundo, ao invés de coisas que passam à frente desse mundo”, explicou o diretor sobre as duas abordagens.

“Não há porque jogar coisas para fora da tela, a não ser em momentos que realmente fazem sentido”, emendou, citando como exemplo a cena em que Simba é rodeado por uma nuvem de poeira, cujos grãos parecem atingir também a plateia. Minkoff reconhece, no entanto, que o truque de avançar elementos sobre o público foi importante na popularização do 3D, e prestou um elogio à evolução cinematográfica recente, que tem proporcionado espetáculos como o próprio relançamento de “O Rei Leão”. “O cinema está aqui para conservar certas tradições ao mesmo tempo em que incorpora os gostos contemporâneos”, refletiu o diretor.

Por falar em novas tendências, Minkoff chama atenção para o fato do 3D ser a força motriz do mercado atualmente. “É uma grande oportunidade para os filmes, pois há o entretenimento doméstico e as televisões 3D”, comentou o cineasta. Ele comentou, ainda, que “A Bela e a Fera” (1991) também será relançado em 3D – mas não passará pelos cinemas, como “O Rei Leão”, e sim em cópias Blu-ray, para serem rodadas nos televisores de mais alta definição.

 Segundo Minkoff, tudo faz parte de um ciclo. “Quando era criança, sempre chegavam filmes da Disney aos cinemas, mas eram cópias de produções antigas que o estúdio relançava. Depois veio o vídeo cassete e, com ele, a necessidade de novas produções e uma nova cartela de lançamentos”, contou o diretor. O exemplo é útil para provar que uma inovação não anula o que existia antes dela: ela também pode complementá-la e incentivá-la. O que, afinal, sintetiza todo o propósito de “O Rei Leão 3D”.

Centenário: Todo mundo ama Lucille Ball

06/08/2011

A atriz e roteirista Tina Fey, considerada um dos grandes nomes do humor americano contemporâneo, declarou em certa ocasião que, em sua percepção, as mulheres sempre foram a força motivacional da comédia na televisão. Para comprovar seu ponto de vista, citou como exemplo os trabalhos icônicos de Mary Tyler Moore, Betty White e, principalmente, Lucille Ball, cuja sitcom “I Love Lucy” é recordada como um dos shows mais emblemáticos dos anos 1950, predecessor do formato que vigoraria na TV pelas décadas seguintes.

Neste 6 de agosto de 2011, Ball completaria o seu centenário. A atriz faleceu em 1989, aos 77 anos, em decorrência de problemas cardíacos. O seu legado, porém, já havia sido imaculado. Não houve na televisão americana mulher tão querida quanto Lucille. De 1951 a 1957, quando “I Love Lucy” estava no ar, mesmo as estrelas do cinema perdiam para ela em termos de popularidade. O programa foi, durante todos os seus anos no ar, o líder de audiência – e o primeiro a encerrar ainda no topo -, e continuou a angariar devotos durante os anos de incontáveis reprises (inclusive, para celebrar os 100 anos de Lucy, as emissoras estão resgatando mais uma vez as cópias da atração).

Tomando o sucesso de “I Love Lucy” como parâmetro, é difícil acreditar que Ball sofreu o ostracismo de Hollywood durante quase duas décadas antes de emplacar. No início dos anos 1930, experimentou a carreira de modelo. Partiu então para comédias musicais, descolando papeis minúsculos em filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers. No sistema de classificação dos estúdios, Ball era catalogada como uma atriz do segundo escalação, da “lista-B”. E, ainda, assim, uma das prolíficas. Segundo a biógrafa Kathleen Brady, autora de “Lucille: The Life of Lucille Ball”, “ela foi uma das atrizes que mais trabalhou duro em Hollywood”. “A certo ponto, fazia 10 filmes de uma vez, mas nunca se elevou ao padrão de estrela”, refletiu Brady.

Mulheres com inclinação à comédia não eram a prioridade da indústria no momento – e mesmo as próprias estrelas se distanciavam desse estigma, buscando a reputação de grandes rainhas do drama. Eis, então, que a televisão surgiu, se disseminou pelo território americano e possibilitou aos talentos menosprezados do cinema encontrar um lugar ao sol. “I Love Lucy” surgiu quando essa indústria em ascenção ainda tomava forma e ajudou a moldar os padrões. Foi o primeiro show rodado diante de uma plateia, com cenários e câmeras fixas – estrutura que se tornaria regra sagrada das sitcoms.

Ball, já uma mulher madura de  vívidos olhos azuis e cabelos ruivos inconfundíveis mesmo pela transmissão em preto e branco, esteve no centro disso tudo. Lucy, uma dona de casa hiperativa e com tendência a se meter em confusões, era uma extensão da personalidade da atriz, um papel que lhe permitia exercitar o timing cômico e o humor físico puxado ao pastelão. Desi Arnaz, marido de Ball na vida real, era também seu marido na ficção, um músico cubano de sotaque carregado. Na trama, o casal vivia em Nova York, com interferências constantes dos melhores amigos e arrendatários, intepretados por Fred Mertz e Ethel Mertz.

O sucesso foi tamanho que, a certo ponto, não havia cidadão americano que não amasse Lucy. Era o show que as famílias se reuniam diante da TV para assistir em conjunto – engraçado, espirituoso, pueril. Foi quase graças a ele que o Emmy, o Oscar da televisão, definiu as categorias que existem hoje: em 1952, quando Lucille e “I Love Lucy” perderam em Melhor Comediante e Melhor Série de Comédia, o escândalo foi tão grande que o vencedor, Red Skelton, disse em seu discurso que sentia que “a estatueta deveria ter ido para Lucille Ball”. No ano seguinte, a Academia da TV optou por separar homens e mulheres em categorias diferentes. Lucille foi finalmente premiada – o primeiro dos seus 5 Emmys, incluindo um Honorário -, e “I Love Lucy” também venceu na categoria principal.

Além de atriz exímia, Ball se provou também uma mulher de negócios de mãos cheias. A CBS, emissora que veiculava “I Love Lucy”, concedeu a Lucille e ao esposo os direitos do show, que eles em parte financiavam. Com essa commodity, os dois fundaram o Desilu Studios, que se tornaria uma potência em Hollywood e lar de outras séries de sucesso, como “The Dick Van Dyke Show”, “Missão: Impossível”, “I Spy” e até mesmo “Star Trek”, hoje uma franquia que dispensa introduções. Em 1962, Ball assumiu o cargo de presidente do Desilu, tornando-se a primeira mulher a ocupar tão alto posto na indústria do entretenimento.

Curiosamente, a parceria profissional de Lucy com o marido foi bem mais sucedida do que a pessoal. O casamento com Arnaz ruía no mesmo ritmo que seus personagens em “I Love Lucy” ficavam mais e mais engraçados. Eles estavam juntos desde 1940, mas passaram a primeira década do matrimônio praticamente separados – Lucy na Califórnia, cumprindo contrato com a Columbia Pictures, e Arnaz viajando pelo país com sua orquestra. Atuarem juntos no show significou passarem uma quantidade maior de tempo juntos – o que, por ironia do destino, acabou os afastando ainda mais. A pressão gerada pela série e a inconfundível ambição de Lucy são apontadas como decisórias para o término do casamento em 1960.

O público não teve porque lamentar o divórcio: a essa altura, “I Love Lucy” já havia encerrado a produção e Lucille continuava sob os holofotes. Nas décadas seguintes, estrelou produções da Broadway, foi para os cinemas com o destaque que outrora lhe fora negado – seus filmes incluem “Os Seus, os Meus, os Nossos” (1968) e o musical “Mame” (1974) -, e estrelou mais duas sitcoms duradouras, “The Lucy Show” (1962-1968), que lhe rendeu mais dois prêmios Emmy, e “Here’s Lucy” (1968-1974), que contou com a participação de seus dois filhos com Arnaz. À altura da década de 1980, Lucille Ball já adquirira o status de lenda.

“Deus queria que o mundo risse, então Ele inventou você”, discursou Sammy Davis Jr. em um dos muitos tributos apresentados a Lucy. Além do Emmy honorário, ela recebeu o Cecil B. DeMille Award na cerimônia dos Globos de Ouro de 1979 e prêmios pela carreira da Associação de Críticos de Televisão e do American Comedy Awards. O carinho do público, porém, é o maior indicativo de êxito – e a comoção gerada por seu centário comprova que o prestígio de Lucille Ball ainda não prescreveu. E jamais prescreverá: por trás de cada sucesso da comédia feminina, como o filme “Missão: Madrinha de Casamento”, um dos blockbusters dessa temporada, está uma trapalhada de Lucy que tornou isso possível.