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Woody Allen em Paris, à meia-noite

25/06/2011

O encantamento de Woody Allen por Paris fica evidente antes que “Meia Noite em Paris”, o novo filme do cineasta, se inicie propriamente. Precedendo os créditos já tradicionais dos trabalhos do diretor – sóbrios, em fundo preto, fonte branca serifada e elenco listado em ordem alfabética -, há uma colagem de imagens da capital francesa, sob um chuvisco que, ao invés de lhe esvair o charme, apenas potencializa a sua unicidade. Ao fundo, a canção “Si tu vois ma mère”, de Sidney Bechet, com a qualidade de vinil antigo, traduz em acordes o que palavras não conseguiriam exprimir.

O deslumbramento traz consigo o risco de anuviar a percepção dos criadores em relação à sua criação. Nesse caso, ocorre o contrário: a admiração pelo cenário é não apenas a força motriz de “Meia Noite em Paris”, mas também um dos pontos cruciais do eixo narrativo. O que Allen discutirá, aqui, é a impressão – equivocada – de que a felicidade está em algum lugar, tempo ou circunstância distante daquele em que vivemos.

Para o americano Gil (Owen Wilson, funcionando como o alter ego de Allen nas falas pontuadas e nos trejeitos neuróticos), o paraíso está em Paris. Mas não na Paris contemporânea que visita com a noiva (Rachel McAdams). Admira, sim, a Paris de 1920, pela qual desfilavam seus ídolos em um período de extrema fertilização artística – um ambiente ao qual o personagem, um roteirista de Hollywood que cansou de se sentir como uma engrenagem do “sistema” e almeja se tornar romancista, daria um rim para fazer parte.

O seu sonho, afinal, não é tão inconcebível assim. Perambulando sozinho por Paris enquanto a noiva, que não partilha do seu idealismo, está dançando com um casal de amigos pedantes, Gil irá embarcar em um “moderníssimo” calhambeque para uma viagem no tempo. O carro, que passa para apanhá-lo pontualmente à meia-noite, conduz o protagonista para a Paris fervilhante da década de 20.

Em festas e eventos, ele é apresentado com intimidade a Scott (Fitzgerald) e sua esposa Zelda; troca palavras com Ernest (Hemingway); presencia uma canja de Cole (Porter) no piano; dá sugestões para trabalhos que Luis (Buñuel) ainda não concebeu; cruza com Pablo (Picasso) na casa de Gertrude (Stein), e submete seu livro incompleto para a avaliação da poetisa. Pelos próximos dias, Gil continua maleando o tempo, sempre a partir da meia-noite, e materializando-se no passado. Até que conhece Adriana, interpretada pela vivíssima Marion Cotillard, e, ludibriado por tamanha beleza e candura, fica tentado a não mais retornar para o presente.

A ligação da moça com a boemia é no máximo tangencial: sempre alternando-se na condição de amante, de um artista a um escritor, de um pintor a um cineasta. Sua insatisfação, porém, nem mesmo Gil, uma rajada de ar fresco entre os homens de sua época, poderia saciar. Os anos 20 não bastavam para Adriana. Para ela, o ápice criativo de Paris havia sido no século anterior, durante a Belle Époque. A certa altura, a trama dá mais uma guinada e conduz Gil e Adriana em mais um retrocesso – mas os ícones da revolução cultural de 1870 são, também, versões mal resolvidas de si mesmos, saudosistas pela Renascença que não chegaram a testemunhar.

Com uma cajadada, Allen se encarrega de dois elementos constantes em sua filmografia: o terreno fantasioso, aqui coberto com a mesma precisão do indiscutível “A Rosa Púrpura do Cairo”, e a, digamos, ignorância humana diante de sua própria condição. Para o diretor, muitos dos grandes problemas da vida poderiam ser poupados se as pessoas não se apegassem demais às suas expectativas ou visões pré-concebidas. Em “Meia Noite em Paris”, a tese é defendida com relativos encanto e paixão – e o enredo, como era de se esperar, ganha fôlego após o início frio, para atingir o ponto quando a fantasia se estabelece. É fácil supor que, dentre os filmes recentes do cineasta, que mantém a média invejável de um lançamento por ano, este será um dos mais ressonantes em um plano geral.

.:. Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, França / Estados Unidos, 2011, Fantasia). Cotação: B+

Quebrando o Tabu: A polêmica que não veio

06/06/2011

Quando um documentário se propõe a debulhar um tema, deve analisá-lo por todas as vertentes possíveis, para que as nuances de uma opinião específica não tornem o relato parcial e para que os espectadores não sejam direcionados em sua interpretação. O público, pelo contrário, deve ser munido de informação para que possa extrair o seu próprio raciocínio. Uma reflexão tendenciosa só é cabível quando o cineasta pretende utilizar o seu poder de persuasão para provocar, cutucar e incomodar – Michael Moore, o polêmico diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9″, é o principal exemplo disso.

“Quebrando o Tabu”, documentário no qual o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso considera as opções políticas sobre as drogas e seus usuários, deixa claro desde o princípio a sua opinião sobre o assunto – mas, com todas as diplomacias que cabem à FHC, não tem a chance de ser transgressor e contundente em relação àquilo que se opõe. Em linhas gerais, o filme é favorável a repensar as implicações legais do uso da droga, em especial a maconha, que serve como refrão para a discussão. Tomando como base os dados de outros países e depoimentos de autoridades e estudiosos, o filme defende, ora velada ora assumidamente, a descriminalização do uso da maconha, se não a sua legalização.

As opiniões contrárias, porém, não são ouvidas. Não há espaço para a acusação, apenas uma sucessão de argumentos da defesa – alguns deles, facilmente atacáveis. Os exemplos citados em que a maior tolerância à maconha teve resultado positivo são, basicamente, restritos aos países europeus, de território estreito e população unificada. A realidade brasileira é outra, e o documentário mostra-se ciente disso quando o ex-Presidente, que faz a vez de anfitrião, menciona que pretende, antes de mais nada, propor a discussão, para estudar como as políticas externas sobre as drogas poderiam se encaixar no nosso país.

“Quebrando o Tabu”, porém, não dá um pontapé inicial nessa discussão. Aliás, sequer começa a se enveredar por ela. O diretor Fernando Grostein Andrade (“Coração Vagabundo”) percorreu junto do ex-Presidente 18 cidades de 8 países diferentes. Distanciou-se tanto de casa que se esqueceu de olhar dentro dela. Não pesa nessa equação a infraestrutura da população atual e o suporte que o governo brasileiro é capaz de oferecer aos cidadãos. Prega que o viciado, depois de irreversivelmente corrompido pela droga, deve ser tratado como um doente, e não como um criminoso, mas não faz qualquer análise da saúde pública brasileira para cogitar a viabilidade desse plano. E a percepção de muitos dos depoentes sobre o tema, como as impressões do médico Dráuzio Varella e do escritor Paulo Coelho, soa mais como palpites em um assunto de foro íntimo do que de foro de lei.

Como cinema, “Quebrando o Tabu” também é discutível. A sequência inicial, na qual FHC é confrontado por repórteres sobre o tema, peca pela obviedade – e a falta de reação do presidente diante das câmeras, provocada pela edição marota, sugere erroneamente que um encontro desconfortável com a imprensa motivou o envolvimento do ex-Presidente na pesquisa, Com 1h10 de duração, o filme poderia ser facilmente encaixado na programação de um canal à cabo e exibido como um documentário feito para TV – destino que possivelmente teria, caso FHC não tivesse vestido a camisa do projeto. As vinhetas que cortam os testemunhos e ligam um pólo da discussão a outro estimulam os moldes da televisão, conferindo ao projeto um tom de amadorismo que não cabe a um longa-metragem. É inspirado, contudo, o uso da animação para ilustrar um ou outro caso.

Entretanto, o fato mais irônico de “Quebrando o Tabu” é que o documentário, com sua proposta de extrapolar o assunto, apenas deu cabeçadas nos mesmos pontos comuns. É o que ocorre quando se fala sobre drogas e sobre qualquer outro tema polêmico: quanto mais se tenta quebrar o tabu, mais ele se realimenta.

.:. Quebrando o Tabu (Brasil, 2011, Documentário). Cotação: D+

Um Novo Despertar: A reconstrução de Mel Gibson

29/05/2011

Nos últimos anos, Mel Gibson só saiu da fortaleza de sua mansão em Beverly Hills para protagonizar escândalos nada lisonjeiros. Entre dirigir embriagado, proferir xingamentos antisemitas e agredir a ex-namorada, não havia no público americano qualquer disposição para conferir um novo trabalho do ator, nem confiança entre os estúdios para investir em uma persona non grata. Eis que Jodie Foster, amiga de longa data de Gibson, lhe dá uma oportunidade de ouro em “Um Novo Despertar”, filme que ela dirige com base no roteiro de Kyle Killen.

Como era de se esperar, essa produção independente fracassou nas bilheterias americanas e pode não ter fôlego para maiores resultados nos mercados internacionais. Durante exibição no Festival de Cinema de Cannes, porém, o filme foi extremamente prestigiado pelos espectadores (exigentes) do evento, o que indica a possibilidade de ser descoberto a longo prazo, tornando-se um cult de proporções modestas.

“Um Novo Despertar” é, de fato, um bom momento para os dois. Para Jodie, uma diretora bissexta, trata-se de uma ligeira evolução frente ao que demonstrara em trabalhos irregulares como “Mentes Que Brilham” (1991) e “Feriados em Família” (1995). Gibson, por outro lado, nunca foi uma referência em atuação  – ao contrário de Jodie, uma atriz excepcional, ele se saiu melhor atrás das câmeras, dirigindo filmes como “Coração Valente” (1995) e “A Paixão de Cristo” (2004). Dessa vez, porém, ele encontra o tom mais adequado possível para o personagem. Mesmo que um personagem tão difícil e esquisito.

Gibson interpreta Walter Black, um pai de família em estágio avançado de depressão, que passou os últimos dois anos em ponto morto, não conseguiu encontrar sentido na terapia e arrastou o restante da família para o buraco negro. A esposa (Jodie) foi levada ao esgotamento emocional e parece estar sempre lutando contra um ataque de nervos silencioso. O filho mais velho (Anton Yelchin) está tão apavorado com as chances de se tornar como o pai que mapeia todos os seus comportamentos similares para se policiar – e, quando frustrado, bate a cabeça contra a parede com tanta força que está prestes a perfurá-la. O filho caçula (Riley Thomas Stewart) também se fechou em um casulo e tem como meta de vida se tornar invísivel – o que, ironicamente, o transforma em alvo de perseguicões constantes na escola.

Quando a esposa decide dar um basta na situação e o expulsa de casa, Walter percebe que, do jeito que as coisas estão, ele já foi até onde poderia ter ido. Mas o suicídio também não lhe convém: não consegue se enforcar com a gravata no banheiro, nem pular da sacada do seu quarto de hotel. Quando tudo parecia perdido, eis que o fantoche de um castor, que Walter encontrou em uma lixeira, assume o controle da situação. Com o boneco na mão esquerda, Walter passa a se comunicar em um pesado sotaque britânico, vivo e articulado como nunca antes esteve. Do sujeito inseguro e catatônico, molda-se em um homem caloroso e confiante, ainda que excêntrico.

Para as pessoas ao redor, é complicado se acostumar com um fantoche que se comunica durante as 24 horas do dia – mas, como supostamente o castor era um artifício terapêutico para ajudar Walter a se expressar, e como ele parece tão ajustado à situação, a família e os colegas de trabalho fazem o possível para se acomodar. De fato, a fábrica de brinquedos que Walter herdou do pai, outrora à beira da falência, volta ao topo com força total depois que ele formula um kit de construção infantil do Senhor Castor.

A esposa lhe permite voltar para casa. O filho caçula adora se comunicar com o fantoche e, através dele, se torna muito mais sociável. Só o mais velho, porém, resiste desde o início a se aproximar do boneco, fechado em seu próprio drama pessoal, em um caso mal resolvido com uma líder de torcida (Jennifer Lawrence, recém-indicada ao Oscar por “Inverno da Alma”). Não demora, contudo, para que o espectador de “Um Novo Despertar” e as pessoas ao redor de Walter percebam que ele, como homem, começou a esvair, e que o castor está tomando gradualmente o seu lugar. De um recurso benéfico, o fantoche passa a uma mania prejudicial e perigosa, com consequências mais sérias do que a premissa levemente irreverente parecia indicar.

Às vezes, parece que o roteiro chega a esses extremos com soluções falsas e nada convincentes. O sucesso estratosférico da empresa de Walter e a sua súbita celebridade, por exemplo, soam forçados – em especial, porque o tempo em que a narrativa se transcorre nunca é bem definido (geralmente, uma edição apressada sintetiza a evolução de Walter no serviço e no lar em um punhado de dias, mas, ao voltar para a subtrama do filho, retomada do exato ponto em que fora deixada, fica a impressão de que se trata simplesmente do dia seguinte).

Mel Gibson é o que atenua a aparente confusão do enredo. Não apenas por sua interpretação correta e matizada, mas também pelo fato do personagem – ou seria personagens? – lhe cair como uma luva. O castor, como explicitou Jodie Foster, é um animal que constrói as coisas e depois as destrói, só para construí-las novamente. Gibson, como homem e como profissional, almejava há muito esse tipo de reconstrução. Não que os erros passados devam ser esquecidos. No caso do protagonista de “Um Novo Despertar”, as cicatrizes não podem ser ignoradas. Mas, da completa destruição, nasce uma nota de otimismo de que, talvez, as coisas não estejam perdidas. Como Jennifer Hudson em “Dreamgirls” (2006) e Mickey Rourke em “O Lutador” (2008), este foi o papel certo na hora certa – e Gibson sequer parece interpretar uma variação de si mesmo.

.:. Um Novo Despertar (The Beaver, Estados Unidos, 2011, Drama). Cotação: B-

Água (com açúcar) Para Elefantes

01/05/2011

É natural que Robert Pattinson tente firmar sua imagem fora da saga “Crepúsculo”, onde interpreta o vampiro embonecado Edward Cullen. A franquia pode tê-lo projetado mundialmente, mas está com os dias contados – falta apenas a adaptação do quarto livro, que será dividido em dois filmes diferentes – e não dá oportunidades para que o elenco dê provas de talento. Seus colegas Kristen Stewart e Taylor Lautner também tentaram alçar voo solo longe dali: ela, em papeis mais verdadeiros no cinema independente, e ele em filmes de ação e aventura que evidenciem seus atributos físicos. Pattinson, por outro lado, investiu nos dramas. Ele foi um rapaz perturbado pela morte do irmão em “Lembranças”, e agora é um jovem estudante de veterinária que se junta ao circo em “Água Para Elefantes”, desde sexta-feira em cartaz no país.

No entanto, os dois filmes fracassaram à sua própria maneira. O primeiro teve uma produção discreta e uma passagem pelos cinemas ainda mais insípida. O segundo, de orçamento bem mais ostentoso e pretensioso, abriu em terceiro lugar nas bilheterias americanas e arrecadou muito aquém do esperado. Não que se antecipasse maravilhas de Pattinson como ator, mas dava-se muito crédito ao seu poder como astro – aqueles atores venerados por multidões, que representam o sucesso comercial de um filme pela simples presença. Pelo visto, o alcance de sua popularidade não vai além das menininhas obcecadas por “Crepúsculo” – mas talvez seja injusto lhe responsabilizar pelo prejuízo de “Água Para Elefantes”.

Seu par romântico, Reese Witherspoon, também vem de sua própria maré de fracassos. Desde que ganhou o Oscar por “Johnny & June”, ela tem tido dificuldades em corresponder ao prestígio da estatueta. No ano passado, Reese protagonizou a caríssima comédia “Como Você Sabe”, dirigida por James L. Brooks, que não arrecadou nem 25% de seu custo nas bilheterias (o filme, curiosamente, chega ao Brasil na mesma semana que “Água Para Elefantes”). Ela já não tem a mesma segurança como estrela, e é demasiadamente inadequada para o seu papel aqui – uma estrela de circo que se apresenta como domadora de cavalos. Além de baixinha e obtusa, Witherspoon não dá liga com Pattinson e eles jamais conseguem se firmar como um casal verossímel e levemente carismático.

Em grande parte, porque o roteiro, adaptado do bestseller homônimo de Sara Gruen, não convence ao aproximá-los. Na trama, o personagem de Pattinson teve de largar a faculdade de veterinária depois que os pais morrem em um acidente de carro e lhe deixam um punhado de dívidas; refugiando-se como clandestino em um trem, acaba conhecendo a trupe de um circo e conseguindo emprego na atração – primeiro, limpando estrume dos animais, e depois de ganhar a confiança do dono da atração (Christoph Waltz, de “Bastardos Inglórios”, em outro papel de maníaco), como veterinário. Reese é justamente a esposa do dono do circo, um sujeito desequilibrado e homicida. Ela se aproxima de Pattinson porque ambos são sensíveis e dedicados com os animais – um romance tão pueril e inocente quanto o próprio enredo.

Mesmo ambientado no início dos anos 30, em plena Grande Depressão americana, o filme tem uma fotografia saturada e calorosa, e um clima indelével de otimismo que não condiz com o estado de espírito dos personagens em boa parte da narrativa. Tudo no escopo da produção parece datado e ultrapassado, como se o projeto tivesse sido engavetado há 70 anos pelo estúdio e revivido sem que fossem feitas as alterações necessárias. O diretor Francis Lawrence (“Eu Sou a Lenda”) é um experiente condutor de vídeo clipes e tem uma percepção visual aguçada. Os elementos que cobrem cada milímetro da tela (figurino, cenografia, efeitos digitais) parecem colaborar para que “Água Para Elefantes” seja um filme plasticamente bonito – porém, só devem se emocionar com a história aqueles que se aterem à superfície aprazível e não tentarem encontrar conteúdo nos estratos da película. À Robert Pattinson e Reese Witherspoon, deseja-se mais sorte na próxima tentativa de se provarem relevantes.

.:. Água Para Elefantes (Water for Elephants, Estados Unidos, 2011, Drama). Cotação: C+

Hop – Rebeldes Sem Páscoa só provoca dor de barriga

20/04/2011

Não há época mais oportuna para o lançamento de “Hop – Rebeldes Sem Páscoa” do que esse feriado. O novo filme de Tim Hill, diretor de “Alvin e os Esquilos”, é estrelado pelo símbolo mais representativo da data para as crianças – o Coelhinho da Páscoa, aquele que espalha ovos de chocolate pelos cantos. Como o Papai Noel, outro ícone que também roubou de Jesus um feriado religioso, o Coelhinho passa 364 dias do ano se preparando para uma única ocasião. Ao invés de produzir brinquedos com os elfos numa fábrica do Pólo Norte, ele lidera uma equipe de pintinhos numa secretíssima fábrica de doces na Ilha de Páscoa. Lá, são feitos todos os quitutes imagináveis – de bombons a alcaçuz, de ovos de chocolate a jujubas.

Cabe a pergunta: como as guloseimas não expiram a data de validade desde quando saem do forno até serem entregues? Mesmo as fantasias precisam de uma lógica interna para se desenvolver, e talvez a falha mais incômoda de “Hop” seja não atestar o que é possível e o que não é possível acontecer dentro desse universo. Assim, quando um coelhinho defeca balas de goma à certo ponto da projeção, não é apenas o humor de gosto duvidoso que provoca estranheza, mas também o fato de que nada antecipava algo parecido. Não se trata de um momento isolado: o roteiro chinfrim e a direção automática de Hill drenam todo o charme que a história poderia ter, transformando o filme num desses passatempos corriqueiros que ficam abaixo da linha da mediocridade.

Nem tudo é despedício. É de encher os olhos a sequência em que a fábrica de doces, totalmente criada por computação gráfica, é apresentada durante os créditos iniciais – as cachoeiras de chocolate e confete são tão vistosas e apetitosas quanto o refúgio de Willy Wonka em “A Fantástica Fábrica de Chocolates”. A fofura, porém, se esvai quando o mundo digital é incorporado ao real. Da mesma forma que em “Alvin e os Esquilos”, atores de carne e osso passam a interagir com os personagens de CGI, dando margem à piadas manjadas com os humanos que se espantam com a presença – ou seria existência? – de animais falantes. Basicamente, tudo o que já foi visto em “Alvin” e em sua desnecessária continuação é requentado novamente.

Assim como naquele, o protagonista é um bichinho com traços antropomorfizados e sérias pretensões musicais – lá, eram três esquilos cantores; aqui, é um coelho que sonha em ser baterista. O humano (lá, Jason Lee; aqui, James Marsden) leva uma vida sem rumo e não é nada receptivo à presença da criatura, mas acaba se afeiçoando a ela e até aprendendo algumas lições ao longo do caminho. O dilema principal envolve Júnior, o aspirante à bateirista: ele é filho do Coelhinho da Páscoa, mas prefere se dedicar ao instrumento do que seguir as pegadas do pai; a narração, porém, se encarrega de anular o ponto crucial da história, revelando o desfecho logo no começo para relatar, de trás para frente, os eventos que levaram e ele.

Adicione um ou outro número musical e alguns percalços mínimos – um trio de coelhas ninjas e um pintinho maléfico que almeja assumir o posto de Coelhinho da Páscoa – e tem-se aí fórmula integral de “Hop”. A fragilidade da narrativa se escancara especialmente no ato final, em um clímax bagunçadíssimo que só deve agradar às crianças bem pequenas pela profusão de cores e movimentos – os adultos que as acompanham correm o risco de se sentir barbaramente torturados. Não se percebe qualquer esforço que diretor ou equipe possam ter feito para potencializar essa premissa preguiçosa. No final, “Hop” equivale a chocolate consumido em excesso: é dor de barriga na certa!

.:. Hop – Rebeldes Sem Páscoa (Hop, Estados Unidos, 2011, Comédia). Cotação: D-

Pânico 4: risos e sustos

15/04/2011

É fácil entender o fascínio que “Pânico” exerceu sobre o público durante seu lançamento em 1996. Promovido pelo nome de Wes Craven, criador da franquia “A Hora do Pesadelo”, o filme foi uma rajada de ar fresco em um gênero que parecia exaurido de ideais originais. Melhor: conseguiu revitalizá-lo sem inovar na estrutura, apenas requentando os clichês e provando que, às vezes, eles podem ser funcionais à narrativa. Não por acaso, “Pânico” elevou, sozinho, o padrão de todos os slashers contemporâneos e criou uma tendência que seria muito imitada e parodiada.

O irresistível timbre cômico se manifestava no humor auto-referenciado, que nos diálogos ferinos do roteirista Kevin Williamson, era o supra-sumo do cool. Os personagens estavam cientes de sua condição, e como os clichês ambulantes que eram, conquistavam o público não pelo arco dramático ou o desenvolvimento complexo, mas por sua absoluta falta de bom senso. Se eram estripados por um assassino mascarado com cara de fantasma (a fantasia também era um símbolo da irreverência), o espectador não tinha de se sentir desconfortável por apreciar tamanha sanguinolência. Afinal, as próprias vítimas não pareciam dar valor à vida, reagindo com indiferença ou excitação à pilha de corpos que se acumulavam.

“Pânico” foi, enfim, um cult em ebulição, que seria revisto e celebrado ao longo dos anos. Logo, o lançamento de suas duas continuações parecia um passo inevitável. Como trilogia, porém, a fórmula não se sustenta com o mesmo sucesso. O esquema foi se tornando menos e menos eficaz nas sequências, e atingiu o ápice do esgotamento criativo no muito irregular “Pânico 3″.  A esse ponto, diretor e elenco já haviam sido impulsionados para outras oportunidades e pareciam dispostos a seguir em frente, dando a obra por encerrada. Isto é, até “Pânico 4″ ser anunciado.

Quando o novo capítulo começou a ser planejado, a equipe original já não estava mais em alta, e as suspeitas de que essa reunião ocorreria por razões não muito nobres eram frequentes. Mas, se alguns indícios sugeriam uma sequência mequetrefe, outros indicavam que a quarta parte não se acomodaria como os “Pânico” 2 e 3. Craven e o time teriam de se provar novamente – especialmente se fossem verdadeiros os rumores de que pretendiam dar início a uma segunda trilogia, para a qual “Pânico 4″ serviria como o pontapé inicial.

Os personagens continuariam cinéfilos inveterados, e as referências a outros suspenses eram imprescindíveis. Portanto, tiveram de atualizar o escopo do gênero, dos artifícios já datados dos anos 90 para os avanços tecnológicos. É de praxe que o assassino da saga entre em contato com as vítimas pelo telefone antes de partir para o ataque. Hoje, no entanto, os telefones sem fio foram substituídos por celulares que gravam vídeos, tiram fotos e compartilham tudo na internet em tempo real. A moda recente dos horrores filmados em primeira pessoa também caía como uma luva à situação e conteúdo.

Assim que o projeto tomou forma, não houve jovem ator em Hollywood que não almejasse um papel. Pudera: o filme era muitíssimo antecipado e seria lançado com a chancela de um produto pop. No entanto, quando a lista de membros no elenco começou a ser engrossada semanalmente com nomes infindáveis, os fãs ficaram com os dois pés atrás. Tantos atores representavam uma trama abarrotada de personagens, talvez com muito espaço para os novatos e uma presença quase tangencial dos veteranos. E havia um fundo de verdade nesses temores.

Neve Campbell, no papel da impenetrável Sidney Prescott, não perdeu a verve ao gritar, correr e revidar os golpes com um ímpeto digno de Jamie Lee Curtis, a heroína da franquia “Halloween”. Ela continua a ser uma peça crucial na trama. Por outro lado, David Arquette e Courteney Cox – o policial Dewey e a repórter Gale, respectivamente-, já não têm tanto a fazer. Ambos são deixados de escanteio em sequências que, nos velhos tempos, teriam tido a chance de estrelar. Tudo para acomodar a nova geração, escalada para atrair os adolescentes de agora – manobra compreensível, mas não exatamente necessária (a juventude atual precisa ser cativada por “Pânico 4″, mas o público majoritário é formado por aqueles que acompanharam e estimularam o nascimento do primeiro filme – e é a eles que a saga deve maior respeito).

Os recém-chegados se alternam entre meras pontas – como uma hilária sequência com Anna Paquin e Kristen Bell, ambas loiríssimas e sem um único pensamento consistente -, participações secundárias – como os policiais vividos por Anthony Anderson e Adam Brody – e até mesmo co-protagonismo – caso de Emma Roberts, no papel de uma prima de Sidney, e de Hayden Panettiere, como uma amiga. Nenhum deles é um talento fenomenal, mas “Pânico” nunca foi um filme de atores, e que todos se adequem à proposta e à artificialidade de seus personagens é o maior elogio que se pode fazer.

Na trama, Sidney volta à cidade-natal Woodsboro, palco do massacre do primeiro filme. Ela está promovendo um livro que escreveu sobre o seu passado traumático – uma obra de auto-ajuda sobre escapar da morte por um triz e continuar vivendo, mesmo com a culpa por aqueles que não sobreviveram (a personagem, aliás, é a única que se mostra levemente consternada com os assassinatos). Na cidadezinha continua Dewey, agora promovido à xerife, e Gale, que abandonou a carreira jornalística para juntar os trapos com o policial.

De alguma maneira, o retorno de Sidney – apelidada de “ceifadora”, por levar tragédia consigo por onde quer que vá – desencadeia uma nova leva de assassinatos, e todas as mortes parecem se rastrear de volta à protagonista. Enquanto isso, a mídia transforma o novo massacre em sensacionalismo, e os adolescentes que cresceram admirando os “filmes” inspirados em Sidney têm a maior diversão de suas vidas. Todos se comportam como se tivessem consciência de que existem apenas na realidade fílmica e que estão sendo observados pelo espectador.

O roteiro, mais uma vez de Williamson, é paródico da primeira à última linha, tirando sarro das próprias convenções que a franquia estabeleceu. A começar pelo início do primeiro “Pânico”, quando Drew Barrymore, alardeada como a possível protagonista da história, é assassinada (artimanha sugada de “Psicose”, de Alfred Hitchcock, que também se desfaz da personagem principal antes da hora). Ficou implícito, depois daí, que todos os “Pânico” abririam com uma morte – e o filme, já ciente das expectativas da plateia, se permite uma série de devaneios metalinguísticos que variam do hilário ao muito engraçado. Isso sem que o roteiro tente ser mais esperto que todos os espertos: o humor não é pedante e as piadas são de fácil conexão.

Esse começo dita o tom das próximas duas horas de projeção – tempo excessivo, que talvez pudesse ser enxugado em um minuto aqui e outro acolá. O importante, porém, é que o filme ateste a sua lógica interna. Quando as intenções são muito claras, quando o ritmo é bem definido, quando o público entra no compasso e, principalmente, quando até as imperfeições soam como um charme à parte, não há razão para criticar. Sim, talvez o trio original pudesse ter mais tempo junto e, sim, talvez as mortes não provoquem asco ou causem calafrios. Mas um susto ou outro você vai tomar. E uma gargalhada ou outra com certeza vai dar. O que é mais do que muita gente poderia esperar.

 .:. Pânico 4 (Scream 4, Estados Unidos, 2011, Suspense/Comédia). Cotação: B+

Rio: Bravo!

09/04/2011

Na animação “Rio”, projeto que o carioca Carlos Saldanha (diretor da trilogia “A Era do Gelo”) nutria há décadas, tudo se converte em homenagem à Cidade Maravilhosa – mesmo os aspectos não tão maravilhosos assim. Entende-se a opção de equipe em limar das praias os vendedores ambulantes, em extinguir das calçadas as rachaduras e em aumentar o fio-dental dos biquinis – opções parecidas à de Jean-Pierre Jeunet ao desaparecer com todas as mazelas de Paris para que a capital francesa não exalasse nada além de charme em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.

No caso de “Rio”, a romantização da pobreza e da criminalidade, que também ganham contornos simpáticos e bonitinhos, talvez pudesse ser repensada. Mas não é a intenção do filme fazer justiça social – e nem deveria ser. O roteiro, aliás, se esquiva de uma demagogia que parecia inevitável, mesmo que os protagonistas sejam um casal de pássaros ameaçados de extinção, um convite irresistível para que se levante a bandeira das causas ecológicas. A intenção primordial é honrar a cidade e aquilo que ela e o país têm de mais particular e indissolúvel. E isso o desenho faz muito bem: para os brasileiros, é um deleite; para os estrangeiros, é um cartão-postal em película, que diverte e entretém ao mesmo tempo em que desperta o desejo de viajar para o destino o mais breve possível.

Na trama, a arara Blu (voz de Jesse Eisenberg no original), o último macho de sua espécie, é contrabandeado do Rio para os Estados Unidos ainda filhote, e criado como ave doméstica pela carinhosa Linda (Leslie Mann). A sintonia entre a humana e o bicho de estimação é tanta, e o conforto de um lar aquecido na enevoada Minessota é tão familiar, que Blu nunca sentiu a necessidade de algo mais. Essa percepção vai ser contestada quando o excêntrico veterinário Tulio (dublado por Rodrigo Santoro em inglês e em português) convida-os para uma visita ao Brasil, para que Blu possa acasalar com a última arara azul fêmea de que se tem registro.

Três poréns: primeiro, a domesticação de Blu impediu que ele aprendesse a voar; segundo, a fêmea, Jade (Anne Hathaway), é independente e desapegada, e nem um pouco interessada nas neuroses de seu macho-alfa; e terceiro, um grupo de traficantes de pássaros raros sitiado numa favela está muito interessado nesse par de araras preciosíssimo. A premissa se desdobra a partir daí com uma série de pequenas aventuras (a narrativa é um tanto truncada e nem sempre fluída), culminando num clímax inevitável e muito prazeroso durante o desfile de Carnaval. Há, também, uma quantidade expressiva de coadjuvantes pitorescos – muitos animais, de tucanos a micos, até a cacatua australiana que se compactua com os bandidos (voz de Jemaine Clement), e outros tantos humanos (destaque para um garotinho órfão que substancia as desigualdades).

Não se pode acusar “Rio” de não ter o coração no lugar: a admiração de Saldanha por sua terra ganha forma em cores e texturas de encher os olhos, realçadas por um 3D muitíssimo bem empregado. Trata-se de um salto considerável na qualidade dos trabalhos da Blue Sky, o departamento de animação da Fox – e, a princípio, tem-se a sensação de estar assistindo a um exemplar da Pixar, com um timbre levemente disneyficado. Ainda que o arco central seja plano e previsível, abusando do clichê do casal que se espezinha antes de se entender e se apoiar, percebe-se uma certa originalidade no processo. A novidade, inclusive, estaria garantida só pelo fato do filme ser realizado nessa fase das animações, mais propícia a continuações do que a histórias fresquinhas.

A trilha musical do britânico John Powell, recém-indicado ao Oscar pelo trabalho fenomenal em “Como Treinar Seu Dragão”, tenta amenizar os ritmos brasileiros para torná-los mais digeríveis aos ouvidos desacostumados, e a colaboração do lendário Sérgio Mendes surte um efeito perceptível. A beleza das faixas instrumentais, porém, não se reflete nas letras: apesar de um número de abertura vibrante, no qual pássaros exóticos e saturados de cores recebem um novo dia com samba e cantoria, “Rio” jamais se posiciona como um musical. Por isso, quando o pássaro-vilão entoa uma canção sobre a sua crueldade lá pela meia hora de projeção, o público não pode deixar de sentir estranheza, como se a lógica interna do filme fosse quebrada. A música composta pelo britânico Taio Cruz, ouvida durante uma espécie de rave para pássaros, também destoa do ritmo e tem contra si uma letra fraquíssima.

É a maior crítica que se pode fazer a “Rio”. De resto, quase tudo é desfrutável e honesto, e o final pode ser verdadeiramente emocionante. O mais bacana, no entanto, é a sensação de que a cidade, retratada com um desvelo palpável, é explorada com dois olhares diferentes: o de um estrangeiro que a descobre pela primeira vez e o de um brasileiro que já a conhece e a ama de peito aberto. O cinema hollywoodiano tem seus representantes do primeiro caso, em especial nos filmes de Carmen Miranda, lusitana naturalizada brasileira que transformou sua própria persona em personagem, e no Zé Carioca, que Walt Disney concebeu em nome da política da boa vizinhança. O olhar interno de Saldanha, porém, é inédito e irresistível. Ele se aproveita dessas referências já existentes, mas não se apoia demais nelas. O trabalho foi pesado – e o resultado se vê na tela.

.:. Rio (Estados Unidos, 2011, Animação). Cotação: B+

Rango: uma graça

02/04/2011

Logo no início da animação “Rango”, um quarteto de corujas prenuncia a morte do personagem-título. Durante toda a projeção, portanto, o espectador acompanha a peregrinação do camaleão Rango já consciente de que ele se encaminha para o calvário. A história, porém, tem muito mais a ver com uma morte simbólica do que com a real – e, aqui, a metáfora “chegar ao outro lado” vai assumir o sentido literal.

É essa reflexão, junta de tantas outras, que torna o primeiro longa animado da companhia de efeitos digitais Industrial Light & Magic tão ou mais aprazível aos adultos quanto é para as crianças. Aos cinéfilos, chega a ser um deleite: as identidades visuais dos reptéis e anfíbios que povoam a narrativa são quase integralmente sugadas de ícones do faroeste, gênero que “Rango” homenageia e subverte, e identificá-las no decorrer da trama é um prazer à parte. Johnny Depp, que dubla o herói no original, é um incentivo adicional, mas a dublagem em português também impressiona pelo nível de profissionalismo. Tudo colabora, enfim, para que o produto final seja de um charme e uma inteligência ímpares.

No enredo, um camaleão criado em cativeiro e metido a filosofices tem o seu mundo virado literalmente de cabeça para baixo quando, num solavanco, seu aquário minúsculo é arremessado pelo porta-malas do carro de seus donos. Sob o sol escaldante da Califórnia, ele vai se afastar da rodovia e se embrenhar no deserto – um ambiente seco e inóspito que já condenou à morte camaleões muito mais experientes. Durante a jornada, o anti-herói se depara com um vilarejo devastado pela falta de água, e graças a uma combinação de sorte e talentos dramáticos, é confundido com um réptil de fibra e promovido a xerife do local. As ameaças, que já não eram poucas, triplicam a partir daí, aumentando a sombra da morte prevista no início.

Em todas as suas opções, a direção de Gore Verbisnki (de “Piratas do Caribe”, fazendo sua estreia no comando de uma animação) é acertada, sensível e humana nas proporções exatas e nos momentos adequados. Da mesma maneira, o roteiro é muito ciente de suas intenções e perfeitamente equilibrado entre uma aventura criativa e um drama intimista de personagem. Tomando o filme por qualquer um desses parâmetros, ele já corresponde a bem mais do que se propôs.

.:. Rango (Estados Unidos, 2011, Animação). Cotação: A-

Where’s the glory?: Uma Manhã Gloriosa

02/04/2011

Não que haja algo errado em “Uma Manhã Gloriosa” se contentar em ser apenas uma comédia romântica suave e caramelizada, mas escusa-se o público por imaginar que poderia esperar algo mais. Afinal, a mocinha Rachel McAdams é sempre agradável de se ver em cena, a simples presença dos veteranos Harrison Ford e Diane Keaton confere uma nota de credibilidade ao projeto, o diretor Roger Michell (“Um Lugar Chamado Notting Hill”) tem um timbre empático muito forte, e todos os materiais de divulgação pareciam sugerir um programa revigorante e o tipo de filme que os americanos chamam de “uplifting”. Ledo engano: não há um sopro maior de inspiração e um mínimo de esforço para escapar das fórmulas já conhecidas, ou ao mesmo vertê-las conforme a situação requeria.

Na trama, uma jovem produtora (McAdams) empenhada em fazer carreira nos shows matinais da América tem sua grande chance ao ser contratada para levantar a moral de um dos programas mais caídos da categoria. Entre lidar com o executivo da emissora (Jeff Goldblum) e massagear o ego da âncora da atração (Keaton), ela consegue trazer ao programa um jornalista ranzinza, prepotente e multi-premiado (Ford), que é forçado a aceitar o cargo por obrigações contratuais. Enquanto o novo co-âncora contraria cada decisão da equipe, a heroína vai se sobressaindo no emprego e, é claro, descobrindo o amor (Patrick Wilson fica com o papel do interesse romântico).

Há um problema, a princípio, na personalidade da protagonista: ora competente e segura de si, ora atrapalhada e imatura, ela jamais consegue encontrar uma estabilidade, e McAdams, geralmente encantadora, passa o filme todo brigando com o papel sem nunca chegar a um acordo. Mas perdoaria-se esse arco inconstante se tudo o que o rodeasse tivesse um mínimo de consistência – o que também não acontece.

O protagonista masculino carece igualmente de substância, alternando-se entre a completa intransigência e um inesperado calor – e não faz sentido que ele altere o comportamento de uma cena para outra sem justificativas plausíveis, o que faz supor que muitas das decisões foram tomadas não durante a elaboração do roteiro, mas na sala de edição. A única semelhança de Ford com o personagem seria o fato de ele parecer se considerar muito acima do projeto, assim como o jornalista se sente superior às baboseiras e trivialidades pautadas no programa.

Vale a pena dedicar um parágrafo à montagem. Não bastasse transitar entre as cenas utilizando musiquinhas-chave como muletas narrativas, fica a impressão de que as sequências foram filmadas sem um ritmo lógico e inseridas no momento que parecia mais conveniente. Os pequenos quadros do programa, que sempre introduzem Keaton ou o metereologista em situações inusitadas, são o exemplo mais evidente disso: estruturar cenas corriqueiras e jogar trilha por cima é um artifício preguiçoso e digno das séries de TV mais displicentes. E a lógica interna do filme também sai prejudicada em meio a tanta banalidade – vide os instantes isolados em câmera lenta ou câmera acelerada, que soam como um capricho desnecessário e mequetrefe do diretor.

Acordar pela manhã de cara amassada e mau humor é uma das tarefas mais desgastantes do cotidiano de qualquer um. Um filme sobre um programa matutino que encoraja os espectadores a levantarem da cama com o pé direito poderia, portanto, ser uma celebração à vida e ao prazer das pequenas coisas. Mas para quê enveredar por outros caminhos, se o já conhecido é muito mais fácil e seguro? Certo? Errado! “Uma Manhã Gloriosa” foi um fiasco de público e crítica nos Estados Unidos, e não deve alçar vôos maiores no Brasil – inclusive porque a premissa se utiliza de muitos elementos indissoluvelmente americanos. Dessa vez, a sabotagem foi interna.

.:. Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, Estados Unidos, 2010, Comédia). Cotação: D+

Bradley Cooper vivendo Sem Limites

27/03/2011

Recomenda-se ignorar o trailer de “Sem Limites”, que faz o possível para realçar a presença do veterano Robert De Niro, no que é pouco mais de uma ponta. No thriller estrelado e produzido por Bradley Cooper, astro consumado desde o sucesso relâmpago de “Se Beber, Não Case”, há pouco espaço para qualquer um que não seja o galã. E não há nada de errado nisso: Cooper é bonito, carismático, eficiente e certamente capaz de segurar um filme. O diretor Neil Burger, o mesmo de “O Ilusionista”, também é muito apto a criar rimas visuais interessantes, imprescindível para um filme que se propõe a externalizar o íntimo de uma personalidade.

Na trama, Cooper é Eddie Morra, um escritor com muitas ideias na cabeça e nenhuma no papel. Sabe-se lá como, conseguiu contrato para um livro e tenta encontrar inspiração entornado doses e mais doses de cerveja. Num de seus devaneios, encontra um ex-cunhado que lhe oferece uma solução imediata para os problemas: uma nova droga que, ao invés de dopar, acelera o raciocínio, permitindo a quem a ingere utilizar os 80% do cérebro a que o ser humano nunca tem acesso. Sob o poder da pílula milagrosa, um mundo novo se expande para Eddie – e para o espectador também.

A fotografia lavada de cores se torna viva e saturada, e as ruas de Nova York se transformam em gráficos que sintetizam uma enxurrada de pensamentos. Em quatro dias, Eddie completa o livro – mas sua nova persona tem ambições ainda maiores. Ele desenvolve métodos astutos para ganhar dinheiro rápido e fácil, repagina por completo a aparência (palmas para o excelente trabalho de maquiagem), consegue conquistar de volta a namorada (papel de Abbie Cornish, de “Brilho de Uma Paixão”) e chama a atenção de executivos ultrapoderosos (o que dá a deixa para a introdução de De Niro).

Mas, claro, vive sob constantes ameaças: primeiro, porque a droga, como todas as demais, é nociva, podendo levar o cérebro a um colapso instantâneo ou exaurir por completo os que pararem de tomá-la abruptamente; segundo, porque gente muito perigosa está atrás do medicamento, e o último suplemento produzido está justamente sob o poder de Eddie, que afanou o estoque do ex-cunhado quando este foi encontrado morto.

“Sem Limites” desenvolve essa premissa fazendo uso adequado dos excessos: o ritmo é acelerado, a edição é frenética e os cenários são o epítome do luxo reservado a alguns poucos bem-sucedidos. É, enfim, um passatempo elegante e satisfatório, fácil de ver e de entender. Nisso, pode-se acusar o roteiro de simplificar a situação ao extremo, inserindo no enredo detalhes que não dão liga e enveredando por caminhos sérios – como os assassinatos que vão se acumulando – sem jamais encará-los com a seriedade e as consequências inerentes aos atos. Como essas opções não comprometem a diversão, porém, é fácil escusá-las.

.:. Sem Limite (Limitless, Estados Unidos, 2010, Thriller). Cotação: C+

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