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No excelente The Help, só a verdade pode libertar o Mississipi dos anos 60

06/09/2011

Enquanto Johnny Cash e June Carter entoavam a balada country “Jackson” pelas rádios de todo o país, a verdadeira cidade de Jackson, capital do Mississipi, não poderia estar mais distante do refrão festivo da canção. Havia pouco a se comemorar por lá no início dos anos 60: entre o auge da segregação racial e o estopim dos movimentos pelos direitos civis, a sociedade se dividia, metafórica e literalmente, em duas facções. De um lado, os brancos experimentavam a prosperidade econômica do pós-Guerra; de outro, os negros eram reduzidos a trabalhos mal remunerados e à condição de serventes daqueles que não permitiam que barreiras mínimas, como dividir um assento no ônibus ou utilizar o mesmo vaso sanitário, fossem ultrapassadas.

Desse cenário, o romance “The Help”, publicado em 2009, extraiu um enredo indissoluvelmente feminino e muito cativante que se converteu em sucesso literário instantâneo: uma ênfase não nos peões da causa – os homens que representavam a palavra de ordem na comunidade –, mas naquelas que povoaram os bastidores da ação – as mulheres que alimentavam os lares com as noções da rotina imaculada que haviam aprendido a propagar. As forças se contrapunham entre as dondocas de penteados irretocáveis – muitas recém-saídas do colégio, sem qualquer experiência universitária e nenhum ínterim entre a casa dos pais e a dos maridos – e as suas empregadas de cor – aquelas que lavavam, passavam, cerziam e criavam as crianças enquanto as patroas jogavam bridge.

A adaptação do livro para o cinema, escrita e dirigida por Tate Taylor, resultou em um fenômeno em proporções ainda maiores: “The Help” (“Vidas Cruzadas”, em seu título nacional) alcançou o topo das bilheterias americanas e calcinou a posição por semanas consecutivas, diante de lançamentos cinematográficos bem mais ambiciosos. De fato, o boca-a-boca foi tão sólido que a queda na arrecadação entre uma contagem e outra foi inexpressiva. E não é difícil precisar o porquê: o público está sempre à busca de catarses, e poucos filmes recentes proporcionam tantos momentos positivos, edificantes e absorventes como “The Help”.

Ajuda o fato de que quase todos esses instantes são explorados não sob as normas de um dramalhão convicto e pesado, mas com ternura e bom humor. No filme, temas indigestos, como as humilhações revoltantes a que eram submetidas as vítimas do racismo, são abordados com surpreendente graça e leveza e, ainda assim, sem desrespeito ou leviandade – motivo pelo qual “The Help” é não raro hilário. Fazem o possível ainda para perder qualquer traço de condescendência, algo que acompanha, inevitavelmente, até os relatos mais bem intencionados do período – e, diga-se, mais realistas também, já que a opção de transformar mesmo as passagens mais amargas em agridoces resulta em uma versão disneyficada e pouco íntegra do Mississipi dos anos 60 (não por acaso, o projeto foi gestado sob o logo da Disney).

O tantinho de indulgência que “The Help” não conseguiu enxugar é sintetizado na figura de Skeeter (Emma Stone), a jovem branca de bom coração que não sabe o que é preconceito – uma espécie de estereótipo obrigatório em fitas do gênero. Ela é a única das amigas que foi para a faculdade e não se converteu em uma parideira antes dos 20 anos. Acalentada pelas lembranças afetuosas da ama negra que a criou, Skeeter decide escrever um livro da perspectiva “da ajuda” – o termo com que a classe superior define as empregadas. É do entendimento da moça que uma interpretação inédita sobre o cotidiano, partindo daquelas de quem não se espera nada além do chão limpo e das fraldas trocadas, poderia suscitar discussões relevantes entre as forças que regiam o Mississipi e o restante dos Estados Unidos.

Skeeter, felizmente, não é enfatizada mais do que o necessário, e Emma Stone é talentosa o suficiente para desviá-la da caricatura. O foco do filme se distribui, enfim, entre as empregadas que se mobilizam para auxiliá-la na missão – não mais que duas, à princípio, já que esse tipo de colaboração era ilegal sob a legislação do Estado e o projeto do livro era mantido em sigilo absoluto entre as mulheres. É sob o ponto de vista de uma delas, Aibileen (a soberba Viola Davis), que “The Help” se estrutura como narrativa (o filme tem início já com as entrevistas que Skeeter conduziu com Aibileen, a primeira serviçal a aderir a causa, e se encerra quando a personagem conclui o seu arco dramático).

A outra “ajuda” de destaque é Minny (Octavia Spencer), conhecida por assar as melhores tortas da região e pelo pavio curto, que já acarretou em inúmeras demissões e em surras homéricas da parte do marido. Minny se desentende com a patroa (Bryce Dallas Howard), uma esnobe que rege o círculo de amigas frívolas como se presidisse um grêmio estudantil, e só vai encontrar nova oferta de trabalho na mansão de uma dona-de-casa ansiosa e excluída dos eventos sociais (interpretada por Jessica Chastain, tão bela que se demora a notar que é também ela uma atriz de minúcias fantásticas).

Não há, aliás, uma única performance destoante no elenco, que é, em sua totalidade, o mais consistente e arrebatador que sê vê no cinema em várias temporadas. Talvez seja justo cogitar que as atrizes são maiores do que o filme em que estão inseridas – afinal, ainda que realizado com alto nível de profissionalismo em todos os quesitos técnicos, “The Help” se guia estritamente por convenções que restringem o seu potencial. Mas comparar o longa com o seu excepcional elenco, ao invés de considerar as atuações extraordinárias como um mérito intrínseco à obra, é uma admoestação nefasta.

“The Help” não revoluciona nem transgride, mas serve aos próprios propósitos com considerável nobreza. É um filme com o coração no lugar, capaz de envolver o espectador por suas mais de duas horas de projeção e de arrancar lágrimas e gargalhadas igualmente sinceras. “The Help” acredita que ódios raciais podem ser substituídos pela harmonia, e todas as suas vertentes se encaminham para uma conclusão doce, mas não adocicada. Ao final, quando Aibileen fisga o público em suas palavras repletas de significância, não há como repreender um suspiro pesaroso: a verdade pode ser dolorosa, mas, como a empregada vem a descobrir, abraçá-la e compartilhá-la é a forma mais límpida e virtuosa de libertação.

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3 Comentários leave one →
  1. 08/09/2011 12:42 am

    Estou muito curiosa em relação a este filme, e essa sua opinião positiva só faz aumentar a expectativa para conferir este filme.

  2. 08/09/2011 4:20 am

    Seu comentário me deixou ansioso pelo filme… principalmente pela tendencia de falar de coisas sérias com ternura e bom humor, como você citou.

    O elenco sem dúvida é ótimo, não tinha como dar errado!

    E a Emma Stone tá cada vez mais em evidência e, convenhamos, com merecimento.

  3. cleber eldridge Link Permanente
    13/09/2011 3:41 pm

    Por mais que o trailer não tenha me empolgado, eu fico na expectativa principalmente pelo elenco ;)

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