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A Marca Potter

10/07/2011

Sob o nome “Harry Potter”, encontram-se registradas nas enciclopédias virtuais pelo menos 4 páginas distintas . A primeira, sobre a série de livros escritos pela escocesa J.K. Rowling e publicados pela editora Bloomsbury entre 1997 e 2007. A segunda, sobre o personagem título da obra, um aprendiz de feiticeiro que, nas palavras de Rowling, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da literatura de fantasia no virar do milênio. A terceira, sobre os filmes da Warner Bros de altíssima rentabilidade que a saga inspirou. E a quarta, sobre a marca que Harry Potter se tornou, patenteada de maneira a render bilhões de libras esterlinas a Rowling, à Bloomsbury, à Warner e a todos os demais que conquistaram direito a uma fatia do bolo.

As questões mercantis relacionadas à franquia, aliás, são os pontos mais convergentes de “Harry Potter” com a legião de fãs que o transformou em sucesso. Nem sempre se pode atribuir um sucesso estrondoso aos fãs que prestigiaram o objeto, mas, nesse caso, a afirmação é apropriada. A própria Rowling afirma que “Harry Potter” surgiu quase como um acidente feliz: a ideia para o personagem e a trama lhe veio à cabeça durante uma viagem de trem, no início da década de 1990. Expurgar os pensamentos para o papel no primeiro livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, levou um punhado de anos, e mais uns meses ainda até achar uma editora interessada no trabalho.

O sucesso inicial no Reino Unido, que alavancou as vendagens de “Harry Potter” nos EUA e, posteriormente, no restante do planeta, deve-se, e muito, às crianças, que o descobriram durante as férias de inverno (o livro foi lançado oportunamente à época do Natal) e o debateram com os coleguinhas na volta às aulas. O boca a boca foi, segundo os estudiosos de marketing, a ferramenta responsável por esse fenômeno extraordinário. E o resto é História: a coleção de livros foi alçada ao topo da lista dos mais vendidos, o alcance do enredo se provou adequado para uma faixa ainda mais ampla de leitores, filas passaram a se formar nas portas das livrarias para obter uma cópia do último lançamento, e Hollywood arregalou os olhos diante de oportunidade tão rentável.

A Warner Bros., estúdio que acabou por vencer a disputa na indústria pelos direitos da franquia, tratou de nutrir o projeto desde cedo. Permitiu, por exemplo, o envolvimento de Rowling no processo criativo da adaptação – mesmo que o contrato não lhe obrigasse a fazê-lo -, e a escritora tratou de assegurar que seu “bebê” não fosse mutilado nem corrompido. Os filmes de “Harry Potter” chegaram aos cinemas como réplicas audiovisuais do livro. Satisfizeram os fãs que a série já conquistara, fidelizaram outros que ainda não a conheciam e originaram, além dos milhões nas bilheterias e nas vendas de DVD, uma infinidade de produtos lucrativos. Os admiradores “roxos” da franquia não tinham mais apenas os livros em casa – tinham álbuns de figurinha, bonecos de ação, varinhas de condão e até uniformes como os da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde a trama se situa.

Discutia-se, aí, até que ponto “Harry Potter” poderia ir como marca antes de diluir por completo a essência dos personagens – em certa entrevista, Rowling afirmou que abominava a possibilidade de ver Harry estampado em uma embalagem de congelados, mas pode apostar que essa ideia certamente foi cogitada por alguém, em algum momento. Paralelamente, os leitores e espectadores iam se amontoando em comunidades virtuais destinadas à discussão da franquia. Impossibilitados de ir à Hogwarts na vida real, criavam realidades alternativas no meio cinético, onde eram selecionados para as Casas e assistiam às aulas de feitiços como acontece nos livros e nos filmes.

À sua maneira, “Harry Potter” apresentou milhões de crianças, lá por seus 11 a 14 anos, à internet, e muitas delas criaram também conexões pessoais, com encontros rotineiros e agradáveis – isso sem mencionar as convenções que se dão esporadicamente em várias cidades do mundo, entre as quais as brasileiras. Os domínios destinados a prospectar conteúdo sobre a saga cresciam a números espantosos, e alguns chegavam a render lucro aos seus idealizadores. Foi quando começaram as dores de cabeça constantes da Warner. Os direitos, afinal, cabiam ao estúdio, e muito do que era debatido sem restrição nos fóruns online iam de encontro com a proteção que todos os criadores detém sobre a sua criação. Mas como tomar medidas legais? Seria o mesmo que enfrentar na corte uma garotada que mal saiu da puberdade e que, na melhor das intenções, só estava tentando compartilhar a sua devoção.

Houve uma tentativa um tanto acalorada da Warner em exigir o fechamento de sites criados por fãs. Eles, é claro, se revoltaram. Teve início um boicote da marca “Harry Potter”, conhecida no internetês como PotterWar. Os mesmos que, até o dia anterior, consumiam todo e qualquer novo produto da saga viraram as costas contra a sua, digamos, mercantilização. Nada que arranhasse a superfície da potência que “Harry Potter” havia se tornado, mas o suficiente para deixar o estúdio em maus lençois. “Não somos uma grande corporação desalmada”, pronunciou-se brevemente um executivo. A Warner, contudo, foi acuada a suspender as ameaças e a criançada, que temia que advogados do estúdio fossem bater em suas portas clamando por um dinheiro que suas famílias não tinham, respirou mais aliviada e prosseguiu com o culto.

Sem querer, porém, os autonomeados “pottermaníacos” contestaram o sistema vigente e conquistaram algo sem precedentes: este foi o primeiro movimento bem sucedido de fãs contra os detentores dos direitos autorais, e é sob esse advento que se faz cinema até hoje, com os espectadores na posição de força de trabalho. O poder está com o povo e os fãs estão felizes, mesmo que de volta à posição de consumidores. Não tão feliz está Harry Potter: a alma do herói, de certa forma, foi tão fragmentada quanto a do vilão Lord Voldemort. O pior pesadelo de Rowling não se realizou e Harry escapou de se tornar garoto-propaganda de lasanha de microondas. Mas a sua transformação em produto está, em todos os outros níveis, completa. “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″, que estreia nos cinemas mundiais no próximo dia 15, que o diga: por alguns (milhões de) trocados a mais, o estúdio forçou o lançamento do filme em cópias 3D, mesmo que isso em nada contribua em termos artísticos e que pouco – ou nada – da tecnologia seja realmente explorada. Talvez, no final das contas, a Warner tenha ficado com a última gargalhada.

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3 Comentários leave one →
  1. 10/07/2011 10:31 pm

    Harry Potter é um fenômeno!!!

  2. 23/09/2011 8:47 pm

    I LOVE HARRY POTTER HE IS ONE “AWESOME”!!

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