O incômodo Dente Canino
É gratificante encontrar “Dente Canino” entre os finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro, uma vez que a comissão avaliadora da Academia é notória pelo conservadorismo e pelo despreparo para julgar o cinema não-americano. O que se vê nessa produção grega, certamente, jamais poderia partir de Hollywood – e caso a indústria a refaça em seus próprios moldes num futuro remoto, é fácil antever que o resultado não atingirá a mesma voltagem. A tendência americana à atenuar qualquer vestígio de violência e sexo seria apenas a ponta do iceberg. Extinguidos esses elementos, o filme pareceria menos chocante, mas permaneceria intragável nas exatas proporções. A premissa, por si só, atesta a sua força: um casal criou os três filhos – um rapaz e duas moças – completamente isolados do mundo exterior. As crianças, que já se tornaram jovens adultos, tomam como verdade absoluta tudo o que os pais lhes dizem.

Como eles não conhecem nada além dos muros da casa, isolada da zona urbana por alguns quilômetros, acreditam que os aviões que cruzam o céu são de brinquedo, e que poderão pegá-los para si caso venham a cair. Quando um gato aparece no quintal, eles, que nunca tinham visto animal similar, aceitam a versão do pai de que aquela é uma fera selvagem e letal. Além disso, aprenderam uma porção de palavras fora de contexto e as empregam para fins distintos – chamam o “saleiro” de “telefone”, por exemplo, e pensam que “zumbi” designa uma pequena flor amarela. Certo dia, o pai informa que a mãe dos três está grávida, e que logo dará à luz um cachorro, notícia que eles, alheios às funções reprodutoras, recebem com naturalidade e entusiasmo. Não entendem o que sexo significa, ou as suas repercussões. Apenas o rapaz manteve relações sexuais, com uma prostituta que o pai levou até a casa (de olhos vendados, para não entregar a localização).
Eles crêem, também, que não é possível sair dali sem utilizar o carro, e que só é permitido deixar a casa depois que lhes caírem os dentes caninos! Entrementes, os pais os envolvem em todo tipo de competição, com recompensas pífias, mas que representam as maiores honras para os filhos. A excentricidade da situação e a sua inevitável comicidade definem os rumos do roteiro, que não explica muito mais. Há pouco que faça entender porque o casal optou por adestrar os filhos como cães (metáfora cujo sentido é quase literal). Mas justificar essas ações não seria viável. Vide os inúmeros casos reais de cidadãos comuns que, descobre-se depois, faziam do lar um cativeiro e lá aprisionavam vítimas durante décadas a fio. Quando atrocidades como essas vêm à tona, acompanham-lhes uma infinidade de porquês que jamais serão respondidos de maneira satisfatória. “Dente Canino”, mais focado nas consequências do que nas causas, é, portanto, a sofisma adequada à proposta.
.:. Dente Canino (Kynodontas, Grécia, 2009, Drama). Cotação: A-
menino, eu vi esse trailer e fiquei com medo e disse que não veria sozinho KKKKK não que me assuste mais eu me senti um pouco incomodado do pouco que vi, meio conturbado. Mais nada diminua a vontade de vê-lo depois da sua resenha. (:
Essa foi a grande surpresa do Oscar, não esperava Dogtooth entre os indicados. Eu acho que “Em um mundo melhor” leva, mas seria curioso ver Dogtooth levar careca de ouro.
Vi esse filme com a minha mãe e morria de rir com ela fechando os olhos nas cenas mais fortes haha. É um filme diferente, bem bizarro mais muito bom.
Tiago, e vai te deixar MUITO incomodado, se prepare. Até recomendo ver sozinho da primeira vez, pra não correr o risco de se sentir constrangido por estar na presença de outras pessoas rs…
Urogi, previ a indicação de Dogtooth, mas não acho que tenha condições de vencer. E que coragem a sua, ver esse filme com a sua mãe hahaha! Bom, quem sou eu pra falar? Vi Shortbus com a minha
quero agora, gente!
“Kynodontas”, ai, grego é muito amor.
filakia.
Acho que pouca gente esperava a presença deste filme entre os indicados. Mas, de qualquer forma, parece ser uma obra bem agradável. Beijo!
Ah por que largou o outro blog? Sinto falta de ver coisa nova por lá.
Quéroul, grego é tudo de bom né? hahaha! Acho que você vai surtar com o filme. Corra atrás!
Ka, ele estava na minha lista de previsões, mas não ia me espantar se fosse esnobado. É forte demais para o que a Academia costuma indicar!
Mark, veja as coisas por aqui agora, oras!
Gostei muito e como sou contra o politicamente correto, estarei torcendo por ele no Oscar.
Annastesia, não vi todos os indicados (só esse e Biutiful), mas compartilho de sua torcida desde já !
Caramba, eu achando que Saló ou os 120 dias de Sodoma, Pink Flamingos e
Violência Gratuita já tinham me chocado o bastante…
Apesar das cenas de sexo, incesto ou violência, para mim a cena mais chocante foi o diálogo sussurrado de pai e mãe, onde a perversão e o ambiente doentio são explicitados ao máximo. É onde você realmente percebe que os pais, ou pelo menos o pai já que a mãe é passional ao extremo, realmente acreditam no que estão fazendo e com isso torna-se mais chocante ainda saber que isso tudo não é um desvario, uma insanidade; é “real”.
No entanto, a alma do filme é de um pseudo-intimismo, vemos os acontecimentos porém não conseguimos sentir, entender ou pelo menos supor o que os personagens estão passando. Mas nem por isso, deixa de ser autêntica, é dura, fria e como você disse incômoda.
Jorge, acho válida a sua comparação com Sodoma, Violência Gratuita e Pink Flamingos (esse último um dos meus filmes favoritos). Realmente, difíceis de degustar. Em certo ponto, Dente Canino fica ainda mais denso que os anteriores.